domingo, 27 de março de 2011

O SAFARI DO CÃO VELHO - Mais Pão de Queijo Filosófico



A experiência da última conversa com a matilha sobre a fábula dos ratos e do gato rendeu muitos frutos. Porém, tio Chicão não estava satisfeito porque além de uma chuva de idéias para resolver o impasse dos ratinhos, os cachorros rosnaram uns para os outros num entrevero que buscava ganhar no latido. Isso não é bom! Não mesmo. Eles precisam aprender que a vida real é feita de acordos, parcerias e ajustes pessoais, e que não basta apenas falar isso. É preciso colocar em prática. Por esse motivo Tio Chicão estava demorando em montar mais uma rodada de fábulas. Ficou na esperança de que aquele livro aloprado e cheio de ginga voltasse nos seus sonhos mas ... não! Não houve jeito. Pata após pata lá se foi o cachorro grandão rumo à biblioteca da mãe. Não demorou muito e encontrou um livro que lhe chamou a atenção. Mordendo a lombada com cuidado, retirou da estante e o levou ao seu tapete de descanso. Tudo isso muito silenciosamente porque se a menina Lua percebesse... adeus sossego! O velho pastor alemão sentou-se vagarosamente porque suas dores reumáticas atacavam cada dia mais fortemente. Abriu o livro a esmo e deparou-se com uma historinha muito interessante. Leu-a com cuidado, fechou o livro e se pôs a pensar em como poderia conduzir essa nova reunião com a matilha. E ficou parado... pensando ... enquanto a Lua se apercebendo disso foi sorrateiramente por detrás e sussurrou no ouvido dele:

- Tiooooooo. O que é que você está lendooooooooo? Hein? Hein? Posso ver? Posso? Tem figurinhas? Tem pão de queijo? Tem? Hein? ...

- Calma, menina Lua. Vamos com calma. Estou pensando na fábula que acabei de ler e ....

- Pronto. Lá foi ela de novo chamar a encrenca!!! – exclamou a Jujuba, como sempre nervosa.

- Menina Jujuba, falou calmamente Tio Chicão. – A menina Lua apenas tem curiosidades e isso é muito bom para o aprendizado. Só quem pergunta o que não entende aprende de verdade.

- Ser enxerida agora é ser curiosa? – reclamou Jujuba ajeitando o seu boné de aba desenhada com o logotipo dos Taboão Bad Dog’s. Sinistro, como dizia o Pingo.

- Pelos deuses do osso sagrado! Vamos respeitar a fala do Tio Chicão? Vamos? – exclamou a Tuca. – Ele só quer nos ajudar! Sosseguem seus rabos e baixem seus pelos.

- Certo, menina Tuca. Pretendo apenas criar em vocês condições de melhor aproveitarem seus tempos livres.

- Eu sei o que fazer com o meu tempo livre – exclamou a Lua. – Comer pão de queijo e brincar de claclá, além de fazer visitas e mais visitas na casa da Tia Cris e lá encontrar a Tia Eneida. É sim!!! Agora mesmo estou vendo como posso ir visitar o Bim que está acamado debaixo da mesa do computador. Acho que vou levar uns pães de queijo pra comer enquanto trocamos idéias. É sim!

- A diversão faz parte da vida, menina Lua, mas não é tudo. Precisamos usar nosso tempo para tudo. E uma das coisas mais importantes e divertidas da vida é nos colocarmos no lugar de algum outro ser e tentar responder as questões que a vida a ele propôs.

- Como assim? – perguntou o Teco. – Já não basta ter que alisar as minhas cicatrizes vou ter que procurar as dos outros cães? Eu, hein! Nem pensar!!!

- É só de mentirinha, seu tonto – exclamou a Tata. – Nada te afetará fisicamente. Vamos fazer de conta que somos o personagem que o Tio Chicão vai nos apresentar com sua fábula. Estou certa, tio?

- Vixessanta! De onde ela tira tudo isso? – falou baixinho a Tetê.

- Das três patas que ela tem. Fica pululando por aí, pula mais alto que nós e com isso vê mais coisas. Só pode ser isso! – respondeu a Chica. – Ela sempre foi a mais esperta entre todos.

- Tá certo, falou a Tetê. E pensando bem ... era verdade mesmo. A Tata tinha apenas três patas e era a mais agitada de toda a matilha. Pulava o tempo todo, ganhava carinho e aproveitava para saber tudo sobre tudo. Além do mais, foi a primeira a ficar transparente. Tinha experiência de sobra sobre fuçar aqui e ali.

- Todos entenderam? – perguntou Tio Chicão. Cada um de vocês vai pensar como o cachorro da minha fábula. Certo?

- Sim! – responderam todos.

- Vamos lá. Era uma vez uma velhinha ...

- Por que será que sempre tem um velho ou uma velha nas histórias? – perguntou a Jujuba. – Uma coisa qualquer com a terceira idade? Que fixação!

- Sabedoria, sua boboca! Ser velho representa ser experiente, - respondeu a Tila.

- Certo, menina Tila. O velho pode ser bom ou mau, mas sempre viveu mais experiências que o mais jovem.É nisso que nos apoiamos para contar suas histórias. Voltemos a nossa fábula. Era uma vez uma velhinha que partiu para um safari na África ...

- Ah não! África não! Nada de Zambézia aqui! – gritaram todos ao mesmo tempo. Sintomático não?

- Não era na Zambézia! Era no coração da África, nos locais próprios para safari. Certo? – esclareceu Tio Chicão. – E ela levou seu velho cachorro com ela ...

- Pode parar! Pode parar mesmo! Nada disso! Safari já é uma coisa detestável porque caça e mata bichos. Agora, querer levar um cachorro lá, ainda por cima idoso???? Nem pensar, gritou a Lua. - Nenhum Tio Chicão pode ir pra África fazer safari. É perigoso. Não mesmo!

- Menina Lua, muito obrigado pela consideração, mas devo dizer que esse safari apenas faz parte da fábula. Nada mais! Não se leva cachorro de estimação para safaris. –explicou Tio Chicão. E a Lua parecia enlouquecida, com os pelos todos arrepiados e rabo abanando sem parar.

- Mas afinal ... o que é um safari? – perguntou a Azeitona.

- Noooosssaaaaa. Você não sabe o que é um safari? Logo você que tem os tais ancestrais africanos? Meus deuses protetores dos baldes de leite! – gritou a Lua.

- Não sei! Respondeu a Azeitona.

- Trata-se de uma expedição de caça feita principalmente na selva africana– explicou a Sasha, arrancando suspiros do Pingo.

- Como ela é branquinha e sabida! – exclamou o amareludo.

- Certo, menina Sasha. É isso mesmo. Mas o nosso safari aqui não aconteceu de verdade. É apenas uma suposição. Nada mais! Certo?

- Tá certo, Tio. Vamos em frente! – falou a Pipoca enquanto acalmava a Lua passando a pata em sua cabeça. Ela sabia como relaxar a branquinha.

- Pois bem. A velha senhora levou seu cachorro para um safari na África e ele foi caçar borboletas ...

- Agora isso! Cachorro caçando borboletas a troco de quê, santos deuses – exclamou a Jujuba.

- ... e se perdeu – falou Tio Chicão que ignorou o comentário da pretinha crítica. – De repente se viu no meio da selva onde viu um jovem leopardo caminhando em sua direção.

- Danou-se! – gritou o Teco – Leopardo é um gatão terrível.

- Certo, menino Teco. – Mas o nosso amigo canino olhou ao redor e viu muitos ossos espalhados. Já havia acontecido uma chacina ali.

- Ai e ai – exclamou uma Lulu toda apavorada. – Imagine o estado do pelo do pobre coitado que foi comido! Espalhado pelo chão. E que chão era aquele? Todo sujo. E fedia, com certeza! Argh!

- Lulu! – exclamou a Tetê – Acalme-se e ouça.

- Pois bem. O nosso amigo canino ao ver os ossos no chão e o leopardo de aproximando, fez de conta que não tinha medo, sentou-se no meio deles e sem dar atenção a fera que se aproximava começou a roer os ossos. E o fez com vontade. O leopardo ficou olhando, mas não desistiu do bote. No momento em que se preparava para atacar, o cão idoso suspirou e disse:
- Este leopardo estava delicioso. Será que têm outros por aí? – falando mais alto.

O leopardo suspendeu o ataque e saiu de fininho. A cena foi assistida por um macaquinho que pensando em tirar vantagens para si resolveu contar a verdade ao leopardo.

- Senhor leopardo – falou o macaco. – Em troca de sua proteção posso lhe contar a verdade sobre o cachorro que viu agora.

O leopardo se interessou ...

- Macaquinho dos infernos! – exclamou a Lua. – Onde já se viu ser um falso assim? Eu ....

- Menina Lua, disse Tio Chicão. – Deixe suas considerações para o fim da fábula!

- Sim senhor. Sim senhor! Mas o-de-io gente falsa! Bicho falso, nem se fala! – resmungou a branquinha. Macaquinho notinha de três reais, de pelo sintético e que colhe banana de plástico. HUNF!

Tio Chicão continuou.
- O leopardo se interessou pelas falas do macaco. Ao saber que o cachorro fingira ter abatido um leopardo, voltou correndo com o macaco nas costas para mostrar a ele como era forte e destemido. Ao longe o cachorro idoso percebeu a reviravolta na situação e imediatamente colocou-se de costas para o atacante que vinha ao seu encalço. Ao sentir sua presença ... porque cachorro tem faro apurado, ainda que seja idoso (e Tio Chicão falava por si)... desatou a pensar alto: - Cadê aquele macaco safado? – Será que demora em buscar outro leopardo para mim? O leopardo, ao ouvir isso, saiu correndo deixando o macaco cair ao chão.

- E então, crianças caninas? O que cada um tem a me dizer? – inqueriu Tio Chicão.

- Macaco besta! – exclamou a Lua. – Macaco que merecia cair numa casca de banana e se esborrachar no chão!

- Bom ... começou a falar a Tuca. – Essa história mostra que os cachorros são espertos.

- Mas não apenas isso, - exclamou a Chica.

- E o que a senhora Chica viu? Perguntou Tio Chicão.

- Que o cachorro sabia agir com sabedoria, colocando sua experiência a frente do seu medo, respondeu a idosa cadelinha.

- Nooosssaaaa, Chica – exclamou a Pipoca. – Que coisa bonita você falou!

- E tem mais, falou a Tata. – Depois de muito viver, um cachorro adquire experiências, da mesma forma que os humanos idosos também o fazem.

- É mesmo! -exclamou a Tetê. – A gente vai ficando mais esperta a cada ano que passa. Perde a agilidade, às vezes até mesmo a visão e a audição, mas a experiência fica sempre. Por isso o cachorro idoso é tão importante na vida do mundo.

- Ah! Mas todos os idosos são importantes, tia Tetê – exclamou a Lua. – O que seria de nós, filhotes, sem os ensinamentos dos mais velhos? Íamos cair nas falsidades dos macacos!

- Alto lá! Isso é que não! – reclamou a Jujuba. – Euzinha taco mordidas no macaco safado ...

- Calma menina Jujuba – falou Tio Chicão, sem conseguir conter o riso. Era realmente hilário ver aquela cadelinha tão pequena, rosnando e mostrando metade da bochecha levantada, e olhando furiosa por debaixo do boné com a aba virada. E ela mordia mesmo.

- Mamãe disse que ouviu a monja dela dizer que quando um jovem morre, morre um livro; quando morre um velho, morre uma biblioteca. – falou o Pingo. – É isso?

- Certíssimo, menino Pingo. – Alguém quer acrescentar alguma coisa?

- Sim senhor, disse a Sasha. – A minha mamãe me ensinou a ser respeitosa com os mais velhos, inclusive os papagaios ...

- Mas até com os macacos X9? – falou o Kousky.

- Que diabos é esse chisnove? – perguntou a Lua

- Um delator, Lua – explicou a Azeitona.

- Todos os mais velhos merecem respeito, falou Tio Chicão. Mas, devo acrescentar que os seres fazem seus caminhos e recebem ao final deles o que plantaram. Se forem bons, deverão ser respeitados; se forem maus ...

- MORDIDAS NELES! – gritou a Jujuba.

- .... receberão, da maioria dos demais, apenas a exclusão e desprezo.

- Triste, não? – falou a Lua. – Por isso é que eu sou boazinha! Adoro todo mundo e todo mundo me adora, não é? Não é? Hein? Hein?

Era melhor concordar porque ela já estava armando o maior berreiro.

- SIM. É SIM! – todos exclamaram. Mas era verdade mesmo. Aquela branquinha gostava de todos. Não importava se recebia um rosnado. Se afastava e esperava para mais tarde se aproximar e tentar ganhar um carinho. Se não conseguia, virava de barriga pra cima e fazia gracinhas até conseguir atenção. Sempre cedia seu claclá para os outros brincarem. Limpava as orelhas da Pipoca e lambia o focinho da Chica numa demonstração de grande carinho.

Tio Chicão percebeu que todos entenderam a fábula. O mais importante era que essa matilha compreendeu que a experiência é mais importante que a artimanha, comparando o leopardo jovem com o cachorro velho. E que de nada vale ser esperto se não se tem caráter, como é o caso do macaco da história. - E também, ponderou o velho pastor alemão, que os humanos são realmente incoerentes porque ficam buscando ensinar pelas histórias que criam, mas que não aceitam executar durante suas próprias vidas. Assim filosofava o tio mais velho da matilha quando foi arrancado dos pensamentos pelos gritos da menina Lua.

- Obaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa. Chegou o correio canino com a caixa de pães de queijo quentinhos que as tias Cris e Eneida mandaram. Obaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.

Tio Chicão nem tentou argumentar acerca da impropriedade desse alimento porque quando deu por si ... comia um enooorme pão de queijo. A experiência de tempos idos dizia que ele teria problemas estomacais mais tarde. Mas, o que se leva da vida além de momentos de felicidade? A menina Lua comendo pães de queijo quentinhos, oferecendo os demais para a matilha, abanando o rabo toda feliz valia o futuro mal estar. E lá estava ela separando alguns deles para levar ao Bim. Menina Lua é a alma da matilha.

Março/2011
Marly Spacachieri

domingo, 6 de março de 2011

O CARNAVAL DA LUA


Unidos do Pão de Queijo entrando na passarela!!!!


Ei você aí... me dá um pão de queijo aí....
Ô abre alas que o pão de queijo quer passar ....
O teu pão de queijo não nega mulata, porque ele é dourado na cor....
Tava jogando sinuca quando um pão de queijo maluco me apareceu ...
Atravessamos o deserto do Saara, o pão de queijo estava quente e queimou a nossa língua ...
Você pensa que pão de queijo é biscoito, pão de queijo não é biscoito não ...
Olha o pão de queijo do Zezé, será que ele é? Será que ele é? ....
Oh pão de queijo porque estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu? ....
Mamãe eu quero. Mamãe eu quero. Mamãe eu quero um pão de queijo...

- Nada disso! exclamou a Lua. - Não tá bom! Acho que preciso de umas aulinhas de música.

- Por que isso, Lua? – perguntou a Pipoca.

A branquinha estava há dias cantarolando pelos cantos, tentando fazer rimas. Ninguém entendia nada. Isso era preocupante porque ela não estava reclamando da falta das aulas que o tio Chicão ficou de dar. Justamente ela que não perdia um recreio! Muito grave!

- Nada não! Estou apenas procurando a música ideal – respondeu a filhote.

- Ai e ai. Ideal pra quê, Lua? – perguntou uma temerosa Azeitona, já antevendo peraltices.

- Pro meu bloco de carnaval, ué? – respondeu a Lua.

- Minha nossa! – exclamou o Pingo lá de longe. – Imagino o que virá depois disso!

- Ué? O que tem de errado na Lua querer fazer um bloco de carnaval? – perguntou a Tetê. – Carnaval é alegria e isso é muito bom.

- Isso é verdade – falou a Lulu. – O pelo da gente fica macio e brilhante.

- Mas a pergunta que não quer calar ... – falou a Chica – é onde será a apresentação desse bloco. Será aqui em casa? No meio dos livros da Zambézia? Entre as partituras das músicas do Tom Jobim e do Edu Lobo? Tenho a impressão que não vai ser uma coisa auspiciosa.

- Claro que vai ser aqui – respondeu uma Lua indignada. – Mas antes estou procurando um canil italiano para nos ajudar e dar o tal do patrocínio: Unidos do Pão de Queijo vai sair genteeeeee.

- Canil italiano? Santos ossos! – perguntou a Tata. – O que tem a ver o mastim napolitano com o carnaval?

- Ué! Simples e econômico, falou a branquinha. – Vejam vocês: os mastins devem comer macarrões com queijo porque eles são italianos, certo? Aí podemos pegar os macarrões talharins e emendar uns nos outros até ter um monte de serpentinas. Depois é só recortarmos o queijo em rodinhas pequeninas para fazer de confete.

- Essa foi brava – exclamou a Tuca. – De onde ela tirou isso? Onde já se viu emendar macarrão e picotar queijos? E os mastins comem mesmo macarrão? Não acredito nisso!

- Por que? O que tem de errado? Assim podemos cantar uma Marcha do Pão de Queijo, pular um bocado, jogar serpentinas macarrônicas e confetes queijudos uns nos outros e depois da festa é só comer que tudo fica limpinho, - explicou a Lua. – Pode ser aqui na sala sim!

- Não é que faz sentido? – falou o Kousky.

- Também acho – disse a Lulu. – A gente nem se suja e nem tem essa possibilidade de melecar a pata. Parece bom! E eu poderei me fantasiar de odalisca canina, lindíssima. O papai não precisará limpar nada. Poderemos pegar aquelas luvas amarelas que ele usa e encher de ar e enfeitar as paredes.

- Pelos ossos sagrados – exclamou a Sasha. – Acho que não vamos conseguir engolir tanto macarrão e nem tanto queijo. Além disso, quem disse que as nossas mamães vão deixar?

- Isso é. E tem mais – interferiu a Chica – como fazer contato com canil de cães mastins napolitanos pra entregar toda essa comida? Como vamos pagar tudo isso? Onde vamos encontrar um monte de fantasias de cachorros mesmo que seja de humanos? Não vai dar certo. Parece aquela fábula dos ratos com o gato. A idéia até pode parecer boa mas ....

- Isso é verdade, falou a Lua. Acho que não temos como pagar, mas se não temos o canil podemos pegar o queijo na despensa da mamãe. Teremos os confetes. As fantasias podem ser qualquer coisa que imaginemos. O que vale é a folia e ...

- Nem pensar, menina Lua. Nem pensar! – disse um Tio Chicão sonolento, mas assustado com o que ouvia. Imagine o que é o barulho de quase sessenta patas batendo no chão e dezenas de focinhos fazendo auuuuuuu. Nem pensar! Eles é que seriam despachados pra Zambézia na caixa da guitarra do papai. É sim! Além disso, que história era essa de roubar macarrão da despensa?

- Por que, tio Chicão, perguntou uma chorosa Lua. – O que tem de errado em se divertir?

- Nada de errado na diversão, menina Lua. Ao contrário, diversão faz parte da saúde de todos os seres. Mas carnaval não é festa pra cachorros, explicou Tio Chicão ao mesmo tempo em que pensava como seria interessante uma festa como aquela inventada pela menina Lua. Tinha que reconhecer que seria algo bom. Não se podia fomentar a fuzarca, as peraltices, muito menos os roubos às despensas, mas também cortar a imaginação e a chance de exercitar a fantasia era pior ainda. Pensando nisso chamou todas as patas e focinhos presentes e mandou mensagens pros invisíveis também aparecerem. O Bim chegou atrasado porque estava na sessão de acupuntura e isso o tornava lerdo e sonolento. Mesmo assim ... falou barulho ... chamou-se o Bim. Ele tinha conhecimento de causa porque era o mascote da Unidos da Academia.

- Meninos e meninas – falou tio Chicão. – Pensando na idéia da menina Lua resolvi que vamos fazer um carnaval aqui em casa.

- Obaaaaaaaa – foi um latido coletivo.

- Mas ...

- Lá vem as regrinhas chatas – exclamou a Jujuba. – Sempre tem as regrinhas chatas!

- ... vamos fazer um carnaval canino.

- E o que é um carnaval canino? – perguntou o Pingo que já se antecipava e pensava como perfuraria seu edredom para abrir dois buracos por onde pudesse olhar e sair fantasiado de fantasma do frio.

- Vamos imaginar fantasias e contar para os demais – explicou tio Chicão.

- Mas podemos cantar? – perguntou a Azeitona. Ela se considerava uma autêntica cantora de voz negra, de apelo e pelo irresistível.

- Podemos cantar sim – falou tio Chicão, um tanto quanto incomodado com a idéia daqueles uivos chamarem a atenção de todo o condomínio. Poderia gerar problemas mas ... era carnaval. E cá entre eles ... os humanos andavam cantando cada porcaria .... ora bolas!

- E a gente vai só imaginar? Nem um confete de queijo ou uma serpentina de macarrão? – choramingou a Lua.

- Isso não, menina Lua. Só podemos comer ração! – mais uma vez explicou tio Chicão.

- Tá certo! – concordou a Lua, muito rapidamente ... o que causou espanto dos demais.

- Aí tem coisa! Falou o Teco para a Chica.

- Ela vai aprontar! Falou o Pingo para a Sasha.

- Espere que lá vem coisa! – Falou a Lulu para o Kousky.

- Seus bobões! Falou a Lua para todos. – Nada disso. Vamos nos sentar e usar a imaginação como propôs o tio Chicão.

Surpreendendo todo mundo, a branquinha se ajeitou em cima da sua almofada e se colocou na escuta como uma boa aluna. Surpreendeu ainda mais quando respondeu a primeira pergunta do tio Chicão sobre as origens do Carnaval.
- Trata-se de uma festa que remonta aos anos antes da era cristã, lá no Egito antigo com os cultos a deusa Ísis. Quase sempre as festas se referiam aos finais das colheitas e as pessoas pintavam os rostos, bebiam e dançavam – explicou uma Lua muito séria, de orelhas em pé.

- Continue menina Lua – falou um maravilhado tio Chicão. – Continue sim!

- Bom, talvez o carnaval seja uma das festas pagãs de Roma onde ocorriam as orgias ...

- O que é orgia? – perguntou o Teco.

- Orgia é libertinagem, explicou a Sasha.

- Piorou! O que é libertinagem? – perguntou o Pingo.

- Meninos e meninas, orgia é uma festa onde há desordem, onde não há controle dos atos. E ...

- Todo mundo pega o pão de queijo do outro? – perguntou a Lua

- Mais ou menos isso, menina Lua. – Trata-se de uma festa sem controles onde as coisas mais perigosas podem acontecer.

- Sei! Roubos dos pães de queijo! Hum! Que perigo!

- Então não é uma coisa boa? – questionou a Tila

- Não, menina Tila. Trata-se de uma festa exagerada, com bebidas em excesso e violências.

- Credo! Que porcaria! E se o carnaval é isso ... não quero mais – exclamou a Chica.

- Não! Não! A menina Lua está apenas mostrando as possibilidades de onde podem ter surgido as idéias que levaram ao nosso carnaval, o dos dias de hoje. Continue menina Lua e pode pular o pedaço da orgia.

- Certíssimo. Então, com a era cristã a Igreja Católica tentou acabar com essas festas pagãs. A Quaresma é um período de festas que se inicia no Natal e que termina na quarta-feira de cinzas.

- Puxa! Que carnaval comprido! – exclamou o Teco.

- Não é o carnaval, Teco, prosseguiu a Lua. - É o final da Quaresma. No último dia antes do término, ou seja, na terça-feira os cristãos podiam comer carne. Por isso era conhecida como Terça-Feira Tuca...

- Como é que é? Eu não tenho nada a ver com isso – gritou a Tuca.

- O que eu quis dizer é que era a Terça-Feira Gorda, e como você é ...

- .... Menina Lua! Pare com isso! – reclamou tio Chicão. – Retome sua apresentação com seriedade e respeito!

- Sim senhor! Noooossa! Ele ficou bravo! Todos os pelos ficaram levantados! Auuuuuuu – choramingou a branquinha, no mesmo tempo em que se ajeitava melhor. – Continuando, a terça feira gorda era muito comemorada já que era o fim da Quaresma e daí pode ter vindo a idéia do Carnaval.

- Certo, menina Lua. Mas não foi apenas isso que caracterizou o Carnaval. Temos outros elementos que foram se acumulando ao longo dos tempos. No período medieval os festejos eram com jogos e disfarces, brigas com confetes e desfiles de carros alegóricos. Nas eras posteriores já apareceram novos elementos como os bailes de máscaras. Nos meados do século XVIII a comédia italiana deu três personagens seus para os festejos carnavalescos: o pierrô, a colombina e o arlequim. O Pierrô era uma figura ingênua, romântica e sentimental ...

- ... como o Pingo? – exclamou a Lua.

- ... e era apaixonado pela Colombina ...

- Como a Sasha? Branquinha e de cabelos enrolados? – continuou a branquinha e sem receber atenção do tio Chicão.

- ... que era uma caricatura das criadas de quarto, sedutoras e volúveis – continuou expondo tio Chicão ao perceber os rosnados da Sasha para a Lua. Houve necessidade de intervenção.

- Meninas brancas! Vamos parar com isso ou suspendo a brincadeira!

- Tio Chicão! Foi a Lua quem começou e ...

- Não fui não! Eu só achei que se o Pingo é o Pierrô, a Sasha tem que ser a Colombina porque senão não combina! Ih! Rimou! – exclamou a filhote.

- Chega de comparações. Vamos nos deter nas informações, caso contrário nada dará certo neste nosso carnaval, - falou Tio Chicão. – O que acontece é que a Colombina também namora o Arlequim que é um palhaço inimigo do Pierrô.

- Vixessanta! Um triângulo amoroso! – exclamou a Tila. – Onde isso irá parar?

- No Bloco do Pão de Queijo – gritou a Lua. – E chega de explicações, tio Chicão. Queremos cair na folia. Hoje é o nosso primeiro dia de Carnaval. Deixe mais aulas pros próximos dias.

- Tá certo, menina Lua. Vamos então pensar em nossas fantasias. A da menina seria o quê?

- Um imenso pão de queijo de orelhas pontudas e rabinho abanando – falou a Lua.

- Eu serei um cachorro fantasma debaixo do meu edredom – explicou o Pingo.

- Eu vou usar uma máscara lindíssima, falou a Lulu.

- Vou colocar minha coleira de pedrinhas pontiagudas e serei uma verdadeira punkdog – falou a Jujuba.

E aos poucos todos foram colocando suas imaginações para funcionar. Cada um escolheu uma forma de brincar esse carnaval dos animais. Imaginavam, explicavam, fechavam os olhos e viam a fantasia surgir. E começaram a comemorar cantando cantigas de roda que todos conheciam. Assim foi até que a campainha tocou. Ao abrir a porta, papai recebeu uma pizza colorida com pimentões verdes, tomates vermelhos e milhos amarelos, coberta com mussarela e salsinha verde, azeitonas pretas e cebolas brancas. Foi o fim do carnaval e o começo do ritual de cercar a mesa, abanar os rabos e esperar pedacinhos de cada coisa.

Mas a Lua ainda tinha uma pergunta:

- Tio Chicão, por que tudo sempre acaba em pizza? Hein? Até meu carnaval acabou assim! Hunf! Vou contar tudo pra tia Cris e pra tia Eneida.

Não houve como não rir.

Contudo, ela não desistiu! A branquinha tentava separar os milhos para fazer seus confetes. Podia acabar em pizza, mas era uma meio carnaval, meio mussarela.

Obaaaaaaaaaaaaaaaa.

Marly Spacachieri
Março de 2011.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

OS RATOS E O GATO - Conversas no Pão de Queijo Filosófico



Tio Chicão acordou com rosnados ao seu lado. Era a Lua sonhando! E rosnava, mexia as patinhas, franzia o focinho ... tudo dormindo. Quando cachorro começa a ter sonhos agitados é porque está na hora de acordar, abanar as orelhas e o rabo. E foi exatamente isso que Tio Chicão pensou ao fazer o chamado geral!

- Atenção meninos e meninas! Visíveis e invisíveis! – latiu o grandão. – Vamos fazer a roda canina pra ouvir a fábula dos ratos e do gato!

- Como é que é? – exclamaram Lua e Lulu ao mesmo tempo! – Ratos e gato? Que história é essa? – continuou o duo canino.

- Calma, calma, meninas. Vamos deixar o tio Chicão latir, disse o Pingo. Mas que aquela história de ratos e gatos arrepiava os pelos ... arrepiava sim. Mas ele não podia demonstrar medo porque a Sasha estava olhando. Não mesmo!
- Meninos e meninas. No tempo em que os animais falavam com os humanos ...

- Peraí! Os animais ainda falam com os humanos! Eles é que não entendem – exclamou a Tata.

- Ai e ai – exclamou mansamente a Tuca. - Vamos deixar o tio falar, depois a gente fala.

- Certo, senhorita Tuca, disse tio Chicão. Voltemos a nossa fábula. No tempo em que os animais falavam com os humanos houve uma aldeia onde os ratos viviam com medo do gato.

- Mas tio Chicão! Todo rato tem medo de gato! Falou o Teco. – Aqui ou lááá China, o gato chinês mete medo até no rato africano . E ... – mas parou de falar quando viu o olhar fulminante da Tuca.

- Bom, esses ratos viviam aterrorizados porque o gato vivia perseguindo-os. Para tanto fizeram uma convocação para uma reunião e ...

- .... levaram muitos pães de queijo, deram pro gato, ele ficou feliz e deixou eles em paz? – perguntou a Lua.

- LUA! Gritou a Pipoca. - Deixe o tio contar a fábula!

- Tá bom. Tá bom. – reclamou a branquinha. – Mas que ia resolver ... isso ia.

Tio Chicão continuou.
- Convocada a reunião, todos os ratos apareceram e rapidamente puseram a falar suas idéias. Depois de muito burburinho chegaram a conclusão que o melhor seria saber quando o gato estivesse se aproximando para então se esconderem. Para isso era preciso colocar um sino no pescoço dele. O som do badalo iria alertá-los. E se alegraram muito com essa idéia. Também concluíram que eram muito espertos. Eram sim! A festa era total exceto por um ratinho idoso ....

- Lá vem a terceira idade atacando! – falou baixinho a Jujuba pro Kousky.

- ... que pediu a palavra. Achava o plano formidável, mas queria saber quem é que iria amarrar o sino no pescoço do gato. Nesse momento fez-se um silêncio digno de uma queijaria na calada da noite. Todos tinham motivos para não ir. E tantas foram as desculpas que não sobrou ninguém que se aventurasse a arriscar seus pelos. Fim da história.

- Como assim? Fim? Sem resolver o problema? Deixando as coisas pela metade? Não pode! Reclamou o Pingo. – Nada disso.

- Menino Pingo, me diga o que você faria no lugar dos ratos?

- Nem imagino! De rato eu só entendo de queijo. Adooooro queijos. Todos os queijos, principalmente os da tia Lorena. Mas, de rato ... não sei nada. E além disso, gatos têm medo de cachorros! – disse o Pingo.

- Não, menino Pingo. Não é isso. Estou falando para você colocar-se no lugar do rato e me dizer o que faria, explicou tio Chicão.

- Tá louco! Rato é um bicho do mal, tem doenças, pulgas e ...

- É fedido, exclamou a Lulu, já fazendo cara de nojo. – O Pingo tem razão! Não dá pra pensar como rato. Somos cachorros, lindos caninos! Perfumados!

- Nada disso! Os ratos são legais sim. A tia Rosa tem um tanto deles. E eu conheci o Mauritz, uma bolinha ratuda lindíssima, toda fofinha, falou a Pipoca.

- Não entendo nada de ratos, exclamou o Pingo. – Muito menos sei quem é esse tal Morritis ... Sei apenas que rato nasce pelado.

- Tadinho. E ninguém põe roupa nele? Fica assim ... no frio ... pode resfriar! – choramingou a Tata, sempre preocupada com a saúde alheia.

- A Tia Rosa cuida deles. Eles têm casinha e brinquedos ... continuou a Pipoca - e até mesmo médico veterinário. São fofinhos sim! Vocês é que são desinformados!

Mas a Lua pulava e pulava porque queria falar.
-Tá certo. Tá certo. O Mauritz é fofinho e quentinho. Todo bicho é lindíssimo. Mas ... voltemos a história do tio Chicão.

- E então menina Lua? – perguntou tio Chicão.

- Eu sei o que os parentes do Mauritz devem fazer, disse a Lua. – Como eu disse no começo, o melhor seria darem pães de queijo pro gato e ele ficaria feliz e deixaria todo mundo em paz.

- Como é que os ratos iriam fazer pães de queijo pro gato? Qual seria o tamanho desse pão? – questionou tio Chicão. – E, além disso, quem garante para a menina que esse gato comeria pão de queijo? Os gatos gostam de peixes!

- Pão de peixe com queijo dentro? Pão de queijo com peixe dentro? Coisas assim? – perguntou a Lua.

- A menina consegue imaginar um bando de ratinhos pescando um peixe? Questionou tio Chicão.

- Não mesmo! Peixe é bicho escorregadio e saracoteia pra todos os lados, pensou alto a branquinha. – Além do mais tem que usar minhocas pra pegá-lo. AUUUUU. Tenho pavor de minhocas!!!!

- Eu pediria para a minha mamãe fazer uma torta com sardinha dentro e daria pro gato. Pronto! – arriscou a Sasha.

- Mas menina Sasha, onde as mamães-ratas iriam arranjar os ingredientes para fazer a torta? E quanto tempo o gato demoraria pra comê-la?

- Que tal a tia Rosa pedir pro tio Diogo fazer umas chipas de queijo? – sugeriu a Pipoca.

- Muitas quantas? Precisaria ser centenas. Coitado do tio! – falou a Azeitona.

- E se todos os ratos esquentassem o queijo e fizessem fios com ele, poderiam montar uma armadilha pro gato ... falou o Teco.

- ... que comeria tudo num segundo! Arre! Cada idéia de jerico! – gritou a Jujuba, toda nervosa com seu boné de aba para trás.

- Quem iria acender o fogo? Onde tem fogão pra rato cozinhar? – perguntou o Teco

- Não dá certo! O rato é muito pequeno pra enfrentar tudo isso. Seria preciso um batalhão deles pra apenas tentar assustar o gato. O melhor seria mesmo mudar de casa, ponderou a Tata.

- Mas em todas as casas tem um gato! – explicou a Tuca.

- Não mesmo! Aqui não tem! – exclamou a Azeitona.

- Mas tem a gente, ué! E não vamos deixar rato algum entrar pela casa e saracotear seu rabinho por aí – falou o Pingo. Só se for os da tia Rosa.

- Lá na USP tem ratos do campo, falou o Bim. – Não sei o que eles comem ... preciso investigar! Será que são eles quem roubam as comidas da geladeira da copa onde mamãe guarda a marmita? Nossa! Será que é por isso que os queijos somem? Tia Lorena precisa ficar atenta.

- Meninos e meninas! Não se desviem do assunto. Quero saber qual a saída pros ratos não caírem nas garras do gato, disse tio Chicão.

- Não sei! Sei lá. Quem sabe? – foram exclamações vindas de todos os lugares.

- Então vocês já têm a resposta! Disse tio Chicão.

- Como assim? Temos a resposta e não sabemos qual é ela? Que quer dizer isso? – exclamou a Pipoca.

- Simples, disse a Chica. – Não temos a solução e por isso a questão está solucionada. Não se tem o que fazer!

- Perfeito, senhora Chica, exclamou tio Chicão. – É isso mesmo. Não tem resposta. É isso!

- Mas peraí, reclamou a Lua. Que coisa besta é essa? História que não tem solução? Não pode! Esse negócio de fábulas é muito chato. Pra que serve uma história que não tem fim?

- Também acho chata, reclamou a Azeitona.

- Não é não, exclamou a Tata. Eu gostei.

- Eu também – disse Lulu enquanto alisava o pelo.

- Meninos e meninas. A moral da história é de que é fácil falar-se de projetos, de se construir soluções no ar e que na prática se mostram inviáveis. Foi isso: inventar a solução é uma coisa, fazer é outra.

- Entendi, tio Chicão, exclamou a Lua. – É como a gente pensar em fazer pães de queijo e não ter queijo. É isso? Ou então não ter forno?

- Mais ou menos, menina Lua. – Próximo a isso! Temos que planejar as nossas ações contando com as nossas limitações, fazendo o que nos é possível. Ficar imaginando soluções mágicas, vindas do ar, do nada, apenas nos leva a frustrações.

- O que é frus-tra-ção? – perguntou Tetê.

- É o mesmo que ficar sem obter os resultados que se esperava. Entendeu? – explicou a Sasha olhando de soslaio pro Pingo. – Mas continue tio Chicão.

- Certo, menina Sasha. Porém, não fazer nada e apenas se lamentar também não nos leva a lugar algum. Mas tem outro ensinamento que vocês tiraram desta fábula e de quem gostaria que falassem: o de trabalharem em conjunto. Tudo fica mais fácil se as pessoas pensarem juntas, se associarem e trocarem experiências. Todos aprendem.

- Isso é uma verdade, falou Jujuba.

- Agindo juntos chegam à melhor solução, explicou tio Chicão. – E todos ganham! Não importa quem teve a maior ou a menor idéia porque todo o grupo saiu vencedor, mesmo que não se tenha conseguido chegar a um final feliz.

- É isso aí! Exclamou a Lua. Mas agora eu tenho uma dúvida.

- Qual menina Lua? – questionou tio Chicão.

- Vou ter que dividir o meu pão de queijo com essa tal associação pensante? Não mesmo! Não vou! Não tem esse negócio de que “todos ganham” com os meus pães de queijo que eu trouxe da casa da Tia Cris. Ela deu eles apenas pra euzinha!

- Menina Lua! Nada de pão de queijo! Apenas ração! – falou tio Chicão.

Mas era tarde demais. A Lua nem ouviu. Saiu correndo para sua caixa de dormir onde se escondeu. Todos podiam perceber o seu focinho se mexendo embaixo do edredom. Nhac, nhac.

- Essa menina Lua! Com certeza vai dar trabalho! – exclamou tio Chicão ao mesmo tempo em que se punha a pensar na próxima fábula que usaria para o Pão de Queijo Filosófico do dia seguinte.

Marly Spacachieri
Fevereiro/2011

domingo, 20 de fevereiro de 2011

PÃO DE QUEIJO FILOSÓFICO DO TIO CHICÃO - O INÍCIO DE TUDO




Uma saudade do Chester da Tia Eneida.

Chegou o Natal e os presentes vieram com ele. A matilha delirou com os pacotes: a Chica ganhou uma almofada fofa, a Pipoca um lindo pote vermelho, o Pingo um novo edredom, a Jujuba uma coleira de pedrinhas coloridas, a Azeitona uma caixa de dormir, a Lua ganhou um colarzinho com pingente em formato de pão de queijo, mas que brilha. Tio Chicão ganhou um novo tapete felpudo. Os transparentes ganharam coisas leves e perfumadas. Todos usaram seus presentes imediatamente e nem deram atenção pros fogos que os humanos ainda insistem em soltar. Bom, para ser verdadeira com esta narrativa tenho que considerar que a Lua questionou acerca desses fogos de artifício. E quis saber o que quer dizer “artifício”. Pipoca tentou explicar mas ...
- Bom, artifício é algo que .... bem .... não sei explicar, disse a Pipoca.
- Pois é, - retrucou a branquinha – ninguém gosta de minhas aulinhas mas ... saber mesmo .... ninguém!
- Alto lá! – disse o Pingo. – Tio Chicão sempre sabe de tudo.
- Não é bem assim, menino Pingo. Ninguém sabe tudo, ponderou Tio Chicão. - Nessa dúvida sobre a palavra artifício, por exemplo, trata-se de algo que pode ser interpretado de diferentes maneiras. Pode ser uma forma artificial, fingida, de se produzir os fogos. Mas pode ser entendida também como uma habilidade em manejar esses mesmos fogos.
- Quer dizer que é uma maneira malandrinha de enganar os olhos da gente? – perguntou a Pipoca.
- De certa forma é sim! Porém, serve para demonstrar comemorações – respondeu tio Chicão. - Mas a menina Lua tem razão. Estou percebendo que o menino e as meninas carecem de maiores conhecimentos acerca das coisas.
- Ah! Não mesmo! – reclamou a Jujuba com sua coleira de pedrinhas. – Vamos combinar que todo cachorro nasce sabendo tudo o que precisa saber!
- Não! Não! Menina Jujuba se engana. O saber sempre é necessário, em todas as ocasiões tem serventia. – falou Tio Chicão.
- Mas para que saber quem descobriu o Brasil ou qual o nome do presidente do país? – questionou o Pingo. – Cachorro não vota!
- Menino Pingo, vamos conversar sobre isso. Não confunda saber responder sobre fatos e nomes com conhecimentos. É muito mais importante saber o porquê se descobriu as terras que hoje se referem ao Brasil do que saber o nome dos primeiros visitantes. Saber o partido político do presidente do país pode ajudar a entender melhor o governo que se está tendo, as coligações políticas, os próximos fatos e coisas assim – falou Tio Chicão.
- Mas pra um cachorro? É preciso saber tudo isso para que? perguntou a Pipoca. – Eu gostaria mesmo é de conhecer o cachorro do presidente! Quer dizer ... da presidenta ... se é que ela tem um, e saber qual é a opinião da dona dele sobre abandonar animais pelas ruas.
- Do jeito que as coisas andam por aqui, logo vamos ter que saber coisas de Veterinária – reclamou a Tetê. Justamente ela que sempre fora a enfermeira de todos! Preocupante!
-Pois é – exclamou a Lua. – E tem o tal horário de verão, o plebiscito para mudar o nome do município de Embu das Artes, o paredão do BBB, a fila do seguro-desemprego que está cada vez mais comprida, a Zambézia, os juros do cheque especial, a campanha salarial dos funcionários da USP ...
- CHEGA, LUA – exclamaram todos os cães ao mesmo tempo, fazendo com que a branquinha se escondesse atrás do armário.
Tio Chicão ponderou que realmente essas eram questões para cabeças de humanos, mas os cachorros precisavam também ter com o que se preocupar, além dos ossos, dos passeios, dos enfeites e das comidas. Humanos não acreditam que os animais podem pensar acerca das coisas que eles, humanos, deliberam. Ingênuos, esses humanos! Porém, ainda era cedo e o sono de antes do almoço chegou de mansinho pegando todas as patas e focinhos. Tio Chicão sonhou com um livro falante.
- Acorde, Senhor Chicão! Sou eu, o livro falante de filosofia.
- Mas o que acontece agora? – falou um sonolento Tio Chicão. – Quem fala comigo?
- Sou eu, senhor. O livro que lhe dará todas as perguntas e criará ambiente para as respostas, disse a voz rouca de um volume encadernado em capa dura com gravações em dourado e fitinha vermelha para marcar as páginas. Bem antigo mesmo! Tinha até uma traça mumificada presa na lombada. O ar ficou com cheiro de naftalina.
- Mas que respostas, caro livro? Não tenho nada pra perguntar! – ponderou Tio Chicão.
- Como então não foi o senhor quem reclamou que os cachorros estão muito preguiçosos, não estão se empenhando em discussões filosóficas e ...
- Nada disso! Quem foi que falou em preguiça e filosofia? Está maluco? – reclamou Tio Chicão. Os meninos estão precisando se ocupar de algumas outras coisas que não sejam apenas seus brinquedos porque acabam sempre se mordendo, rosnando e criando cizânias. E isso não é auspicioso. A Jujuba sempre sai machucada. Mas daí querer um debate filosófico canino ... não mesmo! A menina Lua já tem idéias demais! Não invente coisas! Ela deixa a Tia Cris preocupadíssima.
- Bom, eu pensei em lhe ajudar porque sou um livro de filosofia, mas ... em sendo assim ... melhor que seja outro. Tenha um bom sonho, senhor! – e saiu do sono do Tio Chicão da mesma maneira que havia entrado: do nada!
Nem mesmo havia ressonado um tantinho e outro livro entrou no sonho do Tio Chicão. Agora era um livro bem jovem, com aspecto moderno – digamos ... arrojado. Capa colorida e cheia de desenho, encadernação simples. Se tivesse como ... mascaria um chicletes.
- Olá, velho Chico – disse o livro jovem.
- Como é que é? - “Velho Chico”? - Como assim? – reclamou Tio Chicão, ainda zonzo pelo sono. – Só me faltava isso! Será que se trata de alucinação? Eu bem que desconfiei dos remédios novos que estou tomando! Aquela história de arejamento cerebral não está muito bem explicada! A menina Tetê tem razão em se preocupar com os avanços da Medicina Veterinária.
- Tá certo! Tá certo! É Tio Chicão, não é? – falou o livro moderninho. – É que o classicão me mandou falar com o senhor, - explicou.
- Quem é o classicão? Eu não conheço nenhum cachorro com esse nome. – disse Tio Chicão.
- É um livro, brother! Livro clássico, sacou?
- Santos ossos sagrados! Exclamou Tio Chicão. – O que mais me falta acontecer?
- O seguinte, cara: vou deixar algumas das minhas folhas aí pro tio ler e depois usar pra ajudar a matilha a pensar. Sou um livro jovem, moderno, mas nem por isso fujo do objetivo de instruir, alegrar e ajudar,- falou o exemplar colorido. E sumiu.
Tio Chicão caiu num sono profundo onde muitas folhas escritas passaram diante de seus olhos e tomaram formas e cores. Tudo isso entrou pelo seu cérebro – agora arejado – e começou a fazer sentido. Era mesmo uma forma estupenda de ajudar aos peludos a se portarem melhor, principalmente enquanto os pais humanos não estavam. Ao acordar já tinha delineado uma forma de conduzir esse novo aprendizado. Estava aberta a temporada das histórias para a matilha. Esperou que todos acordassem e viessem para a sala. Não demorou muito e todos estavam em volta do Tio Chicão.
- Menino e meninas, vamos ter reuniões diárias para conversar ... – começou o Tio Chicão.
- Lá vem palavrório, resmungou a Jujuba.
- Calada! – reclamou a Tila – Quando o Tio Chicão late a gente nem rosna baixinho!
- ... e quero que todos vocês compareçam e participem!
- Mas Tio Chicão, a gente não quer mais ir pra escola. A Lua já deu aulas demais e ... disse o Pingo.
- Não é escola, menino Pingo. É apenas um contar histórias, respondeu Tio Chicão. – E vamos ver o que cada um acha, se gosta, se acha errada, chata, ou outra opinião ...
- E vamos falar de pães de queijo? Perguntou a Lua.
- Menina Lua, creio que não há histórias acerca de pães de queijo, mas poderemos comer algumas comidas caninas no intervalo entre as conversas, disse Tio Chicão.
- Topo! Fechado! – gritou Azeitona.
- Todos aceitam? – perguntou Tio Chicão.
E um coro de “sim” foi dito, mesmo que alguns mais devagar que outros. A Lua insistiu em proclamar que estava fundado o Pão de Queijo Filosófico do Tio Chicão para caninos de todas as idades. Tio Chicão complementou que seria um momento onde, desde então, ele apresentaria uma historinha garimpada na literatura mundial, de todos os tempos, e que levaria pra cada focinho dar seus palpites.
- Obaaaaaaa – gritou a Lua, já arranjando sua lancheira pra colocar seus pães de queijo. – Vou chamar todos, inclusive os invisíveis. Eles devem ver o que a gente não consegue e podem ajudar. – Ah! E tem cachorro novo na matilha: é a Sasha, da tia Paquinha. Ela é uma poodle na pata virada, latidora das boas e que dorme como o Pingo, de barriga pra cima. Vou pedir pra ela trazer os pães de queijo da mãe dela. Obaaaaaaaa.
- Muito bem pensado, menina Lua! Muito bem pensado! ponderou Tio Chicão.
E a alegria da branquinha foi tomando conta de todos. Em breve a sala transformou-se num alvoroço só, todos procurando suas almofadas, arranjando seus lanchinhos e puxando as vasilhas com água para perto da turma. A roda foi ficando grande e Tio Chicão fez a chamada:
- Azeitona
- Bim
- Chiquinha
- Jujuba
- Kousky
- Lua
- Lulu
- Pingo
- Pipoca
- Sasha
- Tata
- Teco
- Tetê
- Tila
- Tuca
Um sonoro coro de latidos representou o “presente”. Quatorze rabinhos abanando, alguns resmungos e rosnadinhos e em pouco tempo estava feita a roda do Pão de Queijo Filosófico do Tio Chicão.
- Pois bem, meninos e meninas! Vamos começar nossa reunião de hoje. Vou começar contando uma fábula ...
- Mas o que é fálula, tio Chicão? – perguntou a Lua.
- Não é fálula, sua tonta – disse a Azeitona. – É fábula!
- E o que é fábula? Retrucou a branquinha.
- Sei lá! – resmungou Azeitona.
- Pois é! Euzinha, quando não sei ... pergunto e não me meto a besta como certas cadelas magrelas e pernudas e ....
- Quietas, meninas! – falou tio Chicão. – Nada de brigas! Fábula é uma pequena história com objetivo de mostrar um comportamento de onde se pode tirar exemplos do que se deve e do que não se deve fazer.
- Coisa besta! – reclamou a Jujuba.
- Contudo, continuou tio Chicão sem se importar com os resmungos da pretinha ranzinza – a característica maior é que essas histórias são, em sua maioria, protagonizadas por animais.
- O que é pro-ta-go-ni-za-da? –perguntou Pingo espichando o focinho pra Sacha e querendo parecer um galã. Ela tinha pelos enroladíssimos. - Ai e ai, suspirou o amarelão.
- Vivida, – explicou o Bim.
- Isso mesmo, menino Bim – falou tio Chicão. – As fábulas são vividas por animais que têm comportamento de humanos. É uma forma encontrada de mostrar as coisas boas e as coisas más que os humanos fazem.
- E usam os bichos pra isso? – reclamou a Tuca. – Gente é coisa complicada mesmo!
- É sim, menina Tuca, mas vale a pena começarmos a historinha. Vocês vão gostar.
- E depois podemos comer nossos lanches, né? – gritou a Lua.
- Não sei como ela não engorda! - exclamou a Pipoca.
- Mais tarde. Mais tarde – suspirou tio Chicão. Aquela branquinha só pensava em comer! Precisava mesmo de distração porque caso contrário iria se transformar numa gorda almofada canina! - Vamos começar com as fábulas do Esopo.
- Alto lá! Quem é esse cara? – perguntou a Tila.
- É um lendário autor grego que teria vivido na Antiguidade e a quem se dá a paternidade das fábulas – explicou Kousky.
-Noooossa. De onde ele tira isso tudo, exclamou o Pingo. – Nem tem uma cartola de mágico!
-Dos livros da tia Cris, ora bolas – falou a Tata.
- Mas o que quer dizer pa-ter-ni-da-de? Perguntou o Teco.
- É aquele que gerou. O pai, – falou a Sasha, bem baixinho porque ainda estava tímida. Na casa dela também havia livros, ora!
- Ai e ai – suspirou o Pingo para a poodle. Aquele focinho era lindíssimo mesmo.
- Muito bem menina Sasha – falou tio Chicão. – Isso mesmo! Trata-se do inventor das fábulas. Mas isso pode ser apenas mais uma das infinitas explicações dadas pelos homens para as coisas que ele não sabe de onde vieram. Também não importa quem inventou as fábulas, pois o importante é que elas chegaram até os nossos dias e nos ajudam a entender o bem e o mal.
- Então vamos a elas, tio Chicão – gritou a Lua.
- Pois bem. Eu vou contar a historinha e depois que eu acabar vocês falam o que acharam, certo?
- Certo – latiu ao mesmo tempo aquela matilha.
Mas ... sempre tem um mas!!! nesse momento ouviram a chave sendo rodada na fechadura. Era o papai que chegava pra por ordem na bagunça que eles fizeram durante a manhã toda. E também era a hora do almoço. Tio Chicão achou melhor começar a sua exposição depois de todos comerem. E quando cachorro come ... dorme! Melhor esperar para depois da soneca. Ele mesmo estava cansado. A última coisa que fez foi marcar a página de onde tirara a primeira fábula: Os ratos e o gato. – Xi! Acho que a menina Lua não vai gostar! Ela não tem simpatias por ratos porque eles comem os queijos que fazem os pães. - Mas ... fábulas são fábulas, pensou tio Chicão antes de colocar seu focinhão na vasilha de ração e comer tudo. Pouco depois era uma soneca coletiva. Melhor esperar, não é?
MARLY SPACACHIERI
fev/2011

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

LUA E OS MOSQUITOS DA TIA CRIS




Havia uma dúvida no ar: será que a Lua sabia mesmo escrever? Como então sabia ler? Essa questão inquietava a Pipoca, e piorara desde que o caso do Tiririca veio à baila. A amarela tinha pavor de falcatruas! Em algumas ocasiões a Lua fizera trejeitos de que estava anotando coisas, mas ninguém havia visto qualquer letrinha dessas! O Pingo tinha certeza que ela não escrevia e nem lia, que era tudo encenação, mas certeza ninguém tinha. Pipoca estava a pensar nisso quando ouviu

Lá lá lá lou
A Zambézia acabou!
Pra casa da Tia Cris
Eu vou! Eu vou! Eu vou!

Era a Lua cantando enquanto juntava suas figurinhas de pães de queijo. Ela tinha a maior coleção de fotos deles. Pipoca se aproximou e perguntou de repente:
- Lua! Você sabe ou não escrever?
- Ué, Pipoca! Claro que sei – respondeu a branquinha.
- O Pingo jura que você não sabe!
- Mas eu sei sim. Só que não consigo segurar o lápis na patinha.
- Nenhum de nós consegue! – respondeu a Pipoca.
- Pois é! Então por que você perguntou se todos somos assim ?
- Sei lá! Bobeira, falou a Pipoca. – Mas você está fazendo o quê?
- Pegando as minhas figurinhas de pães de queijo e guardando porque agora tenho que preparar a minha aula, disse a Lua.
- Aula? Que aula? Novamente a escola? – perguntou a Pipoca, já antevendo problemas com os demais cães.
- É uma aula muuuuito especial e em homenagem a minha Tia Cris – disse a Lua.
- Como assim?
- Simples! Vou explicar a origem dos mosquitos, falou a branquinha.
- E o que a Tia Cris tem a ver com mosquitos, Lua?
- Ela tem tuuuudo a ver. Lá na casa dela tem penudos – que eu vi – e eles gostam de comer mosquinhas e mosquitinhos.
- E daí?
- Daí que vou contar de onde saem os mosquitinhos que a Tia Cris serve para os penudos, disse a Lua.
- Lua. Pelos deuses caninos! Pare com essa história abestalhada! A Tia Cris não serve nenhum mosquitinho pra penudo algum! Ela serve comidinhas ...
- .... mosquinhas e mosquitinhos! É sim! É!!!!! – choramingou a Lua
A Pipoca não podia ver o focinho choroso da Lua! Isso não!
- Tá certo, Lua! Tá certo! – respodeu a amarelinha. A Tia Cris vai entender! – pensou.
- Então Pipoca, chame todo mundo porque a aula vai começar logo que eu guardar as minhas figurinhas. Obaaaaaaaaaaaaaaaaa.
Pipoca coçou a orelha direita e depois a esquerda enquanto pensava como faria para que os demais cachorros entrassem nessa aula! Aí teve uma idéia.
- Matilhaaaaa – gritou a Pipoca. – Venham todos! Tem coisas aqui!!!
Em menos de alguns segundos já estavam todos lá: Chiquinha, Pingo, Azeitona, tio Chicão e Jujuba ajeitando seu boné e franzindo o focinho, e como sempre foi a primeira a perguntar:
- Que aconteceu? Por que interromperam meu sono? Que coisas?????
- Matilha. A Lua vai contar uma historinha e ....
- Nem pensar! Respondeu a Jujuba. – Ela de novo com essa mania de escola? Pensa que a gente é o quê, hein? Fica sempre perguntando ... perguntando ... – Se isso é a tal “coisa” .... deixa pra lá!
- Jujuba, disse a Pipoca, não custa nada ajudar. Ela ainda é filhote e precisa se ocupar de alguma coisa que não seja fuçar onde não deve! Lembre-se que a mamãe está saindo da tal tese sobre a Zambézia muito cansada. Um pouco de boa vontade cai bem, não é?
- É isso mesmo, disse o Pingo. – E no final sempre sobra um tantinho de comidas e a gente se diverte com ela.
- Certíssimo, menino Pingo, disse tio Chicão. – A menina Lua precisa mesmo de incentivos culturais! Chame-a, garota Pipoca.
- Luaaaaaa. Pode vir! – gritou a Pipoca.
- Chamaram? É mesmo? Todo mundo veio pra saber dos mosquitos da Tia Cris? – falou a branquinha.
- E isso agora? O que tem a ver a Tia Cris com mosquitos .... ??? – falou a Jujuba
- Tudo! Tudinho! A Tia Cris tem mosquitinhos pros penudos e eu sei de onde ela busca os mosquitinhos! Sei sim! – falou a Lua.
- Minha nossa! – exclamou o Pingo. – Agora ela exagerou!
- Lua, falou a Chiquinha – que é isso? Onde já se viu falar isso da Tia Cris? Mosquitos são nocivos à saúde e ....
- .... e são comidas de penudos! Fazem parte da cadeia alimentar – disse a Lua.
- Cadeia alimentar? Desde quando se prende comida? – perguntou Jujuba. – Tem penitenciária pra salsicha? Cela pro macarrrão? Revista das roupas do coxão mole? Habeas corpus pras nozes serem abertas? E o descaroçador de azeitonas é pra torturar? E falou olhando pra Azeitona! Que perigo de idéia!
- Juju, às vezes você me espanta! Cadeia alimentar é o ciclo de alimentação de todos os seres vivos. Um alimenta o outro, não é tio Chicão? - perguntou a Lua.
- Certíssimo, menina Lua – exclamou tio Chicão, surpreso pelas palavras da cadelinha. – E de onde a menina tirou tanto saber?
- Dos livros. Sempre dos livros. A mamãe e o papai têm muuuuuitos livros! – Tem sim! E euzinha – que sei ler – pego alguns deles e leio tudinho! - respondeu a branquinha.
- Pois bem! Vamos sentar em roda pra Lua poder contar a tal história mosquital! – falou a Azeitona.
Todos em círculo, cada um procurando a melhor posição e a Lua começou.
- Houve um tempo em que os homens falavam com as árvores, com os animais e até mesmo com a água e a terra. Todos se entendiam e se ajudavam. Mas tinha os espíritos. E tinha espírito bom ...
... anjinhos? – perguntou o Pingo
- .... sim. Anjinhos, anjos e anjões, respondeu a Lua. – Mas tinha os diabinhos também! Esses eram terríveis e faziam coisas feias...
- Que coisas feias? – perguntou a Azeitona.
- Coisas como roubar os claclás dos outros, comer os pães de queijo que não são seus, mostrar pro papai onde se escondeu o shampu canino .... coisas assim! – disse a Jujuba.
- Certo, Juju – disse a Lua. – E essas coisas feias também podiam ser enganar as pessoas.
- Pessoas são enganadas com facilidade, disse a Lulu, que chegava sempre sem avisar, de patas dadas com o Kousky. Agora estavam inseparáveis.
- Oi Lulu. Oi Kousky. Sentem-se aí, disse a Chiquinha. – A Lua está contando uma historinha ...
- Tentando! Estou tentando! – resmungou a branquinha. – Vamos em frente! Então esses diabinhos podiam se transformar em humanos e criar a maior confusão no mundo das gentes! Aí fingiam que eram papai ou mamãe ...
- Que perigo! – exclamou o Pingo! Mas a gente sabe quando é ou não é. O cheiro não é o mesmo!
- É assim pra bicho, mas não para as gentes! – ponderou Tio Chicão. Os humanos são bem limitados em seus sentidos.
- Posso continuar? – resmungou a Lua.
- Sim, menina Lua. Continue, disse tio Chicão.
- Pois bem. Teve um dia que um desses diabinhos aproveitou que um papai saiu de casa e se transformou em um homem igualzinho ao papai e nem a mamãe conseguiu perceber que não era o papai! E os filhos do papai de verdade acreditaram que o papai de mentira era mesmo o papai de verdade.
- Que coisa! Falou a Chiquinha. – E aí, Lua?
- Pois é! Quando o papai chegou de volta viu que dentro de sua casa estava o papai de mentira. Como o papai de verdade era muuuuuito esperto, como o nosso papai é, ficou bem quietinho, foi se aproximando e chegou embaixo da janela e viu que os filhos estavam em volta do papai de mentira enquanto a mamãe fazia a comida. Aí o papai de verdade esperou os filhos saírem para buscar a lenha pro fogão ...
- Que história antiga, Lua! Onde já se viu fogão à lenha? Não tinha microondas? – interrompeu a Jujuba.
- .... porque a mamãe precisava, completou a Lua, enquanto olhava raivosamente para a Jujuba que se encolheu toda. Vixessanta! E a branquinha continuou. – Assim que um dos meninos pisou no jardim, o papai de verdade o chamou e falou pra ele que aquele papai que estava lá dentro era de mentira. E aí falou também que ele deveria entrar e pedir para a mamãe e os outros garotos saírem, todos disfarçando pro papai de mentira não perceber. O menino fez tudo direitinho e logo todos estavam lá fora, menos o papai de mentira. Assim que estavam todos juntos começaram a gritar e correr pelos caminhos da floresta. Isso despertou os mágicos ...
- Que mágicos são esses agora, Lua? – perguntou o Pingo. – Era uma floresta ou um circo?
- Eram mágicos, gente que faz as coisas aparecerem e desaparecerem, mas de verdade, não com cartolas e coelhos. Mágico de verdade! – tentou explicar a Lua depois de se enrolar toda.
- Menino Pingo, os mágicos que a menina Lua se refere são aqueles que mesmo sendo humanos são os mensageiros e intermediários entre os homens e os deuses. Em algumas culturas são chamados de xamãs. Em outras são os pajés, explicou tio Chicão.
- Entendi, falou o Pingo.
- Pois é! Esses mágicos chegaram perto do papai de verdade e sua família e souberam que o diabinho havia se transformado em um papai de mentira. Daí que pegaram ele, o papai de mentira e colocaram dentro de um vaso de cerâmica e ...
-Peraí Lua. Que coisa toda é essa? Como é que os mágicos conseguiram colocar o diabinho dentro do tal vaso? perguntou a Lulu. – Não parece ser tão fácil assim!
- Não foi mesmo! Esses mágicos eram mágicos mesmos e fizeram a mágica que fez o diabinho entrar no vaso e ....
-Lua! Assim não vale! Tem que explicar tudo direitinho – disse a Pipoca.
- Tá certo! Tá certo! Esperem que eu vou ver como esses mágicos fizeram – disse a branquinha enquanto saía pra biblioteca da mãe.
- Eu quero ver onde entram os mosquitos da Tia Cris nessa história – falou o Pingo.
- Não se preocupe, Pingo, que ela arranja um jeito, disse a Azeitona.
A Lua voltou toda sorridente e foi logo dizendo: - Os mágicos tiveram ajuda das forças da natureza! Foi assim!
- Forças da natureza, Lua? Mas o que são elas? – perguntou a Jujuba.
- Ah não! Isso não tá na historinha! – resmungou a Lua, ao mesmo tempo que pedia socorro para o Tio Chicão, com um olhar apavorado.
- Menina Jujuba, disse tio Chicão, todas as atividades da natureza representam sua força. Veja o vento, a chuva, o calor, o frio. Tudo isso pode fazer muitas coisas.
- Viu? Viu? – falou a Lua enquanto dava uma piscadela pro tio. – Pois é. Essas forças ajudaram os mágicos a colocar o diabinho dentro do vaso de cerâmica. Aí ele ficou preso.
- E daí? Onde estão os mosquitos? –perguntou o Pingo
- Calma. Muita calma nessa hora que ainda não acabei. Eles, os mágicos, colocaram uma tampa muito forte no vaso e colocaram numa fogueira para que virasse um monte de cinzas. Assim aconteceu. Mas quem disse que o diabinho morria assim? Nada disso! Para acabar com o danado era preciso afogá-lo – explicou a Lua.
- Afogar as cinzas? Como se afoga as cinzas? – questionou a Azeitona. - Nunca vi um carvão afogado!
- Não sei! Isso eu não sei! – gritou a Lua. – Só sei que tinha que afogar as cinzas do diabinho. É sim! E se era assim ... assim era! Ninguém ousou discordar! Lua irritada era algo inominável.
- Pois bem! Aí que os mágicos chamaram os meninos mais fortes da floresta e eles, os meninos, deviam ir até ao lago láááááá longe e jogar o vaso. Eles levantaram o vaso pelas alças e ...
- Vaso com alça? – perguntou Pipoca.
- Que diferença faz se tinha ou não alça, Pipoca? – perguntou o Pingo.
- Nenhuma! Resmungou a amarela. – Mas vaso com alça não é uma ânfora? – falou para si mesma. – Ânfora é vaso antigo ....
- Mas a história tem forno! Por que não pode ter ânfora? ponderou a Chiquinha.
- Pois bem. Eles, os meninos, pegaram o vaso-ânfora e saíram pelo caminho da lagoa. Era longe e logo eles se cansaram. Daí que pararam para dormir e ...
- Alguém roubou o vaso? – perguntou a Chiquinha.
- Não! – respondeu a Lua. Ninguém roubou nada! ]
- Mas o que aconteceu afinal? – perguntou o Kousky que queria saber onde é que entraria a história dos mosquitos da sua mãe.
- O vaso ficou ali no chão e quando eles acordaram ....
- Sumiu?
- NÃO. NÃO SUMIU! – gritou a Lua. – Estava lá no chão, do mesmo jeito!
- Ah! Tá certo! – falou o Kousky, um tanto assustado porque não conhecia bem o mau gênio da Lua quando irritada!
- Pois bem! – falou a Lua. - O vaso estava lá, no mesmo lugar, mas os meninos estavam cansados de carregá-lo, porque era pesado, e achavam que se o deixassem lá no meio do mato, na floresta onde os homens não passassem, teriam cumprido a sua missão. - Mentirinha de nada – pensaram. Pegaram o vaso e quando iam escondê-lo ele caiu e se partiu ao meio.
- Devia ser uma ânfora falsa – falou a Pipoca.
- E aí? O que aconteceu? – perguntou o Pingo, enquanto torcia o rabo com tanta aflição.
- Daí que as cinzas caíram no chão, ué! Respondeu a Lua. – O que você esperava? Caiu tudo!
- Onde é que entra os mosquitos? E a Tia Cris? – perguntou a Lulu.
- Simples, respondeu a Lua. – Quando as cinzas tocaram o chão se transformaram em mosquitos.
- E a tia Cris? – perguntou a Azeitona. – Onde estava a tia Cris?
- Simples. A tia Cris sempre cuida de penudos, de peludos, de miantes, compra pães de queijo e por isso ela já era um dos anjinhos. Então ela pegou os mosquitos e guardou num vaso e depois deu pros penudos dela. É sim!
- Menina Lua, falou tio Chicão e seu latido sério deixou todo mundo preocupado. – Uma parte dessa história tem sentido, mas o final não. Acerte isso! Não se pode fazer mentiras com coisas sérias. Lendas são importantes para as sociedades em que estão inseridas.
- Tá certo, tio. Vou explicar. Eu peguei essa historinha do papai de verdade, do papai de mentira, dos filhos, da mamãe e dos mágicos, todos eles, de um livro da mamãe. Achei bonitinho e por isso coloquei a Tia Cris nela porque ela cuida dos penudos - e por isso a tia Cris é anjinho - e os penudos gostam de mosquitinhos. Daí pensei que se os mosquitinhos pudessem entrar num vasinho poderiam chegar nas mãos da tia Cris e todos ficariam felizes, falou a branquinha. É o meu presentinho de natal pra Tia Cris porque ela anda muuuuito tristinha ultimamente, e isso não pode! Não pode não! Natal é alegria!!!! Tem árvores, bolinhas coloridas, luzes e mosquitinhos pros penudos!

Era impossível não se emocionar com aquela inocência. Até o Kousky concordou e até falou que realmente a mãe dele tinha um vaso pra colocar os mosquitinhos. E falou piscando para a Lulu. Ela confirmou tudinho. Mas tio Chicão não aceitou isso como final e exigiu que a Lua buscasse o tal livro de onde havia tirado a história. A branquinha apareceu com ele preso entre os dentes: Legends of the Amazon, de Vinicio Ortiz. Lua lendo em inglês? Como assim?
- Nada disso, gente. Mamãe fez a tradução e eu li.
- Certo, menina Lua. Falar a verdade é muito bom. Vejamos então - falou Tio Chicão que por ser um pastor alemão ... aprendera inglês - .... trata-se de uma lenda dos povos Quichua, da selva amazônica pertencente a América hispânica, que explica a origem dos mosquitos.
- Só sei que nessa tal lenda tem mosquitinhos e que alguns deles são parentes daqueles que servem de comida pros penudos da Tia Cris. São sim porque mosquitinhos vão voando ... nascendo ..... voando ... e alguns chegam até aqui! Eu li num livrão da mamãe. E se eu conseguir arranjar um vasinho e colocar mosquitinhos posso ir à casa da Tia Cris comer pão de queijo e encher ela de lambidonas. Aí ela pega os mosquitinhos, dá pros penudos e vai sorrir muito porque penudo é tudo de bonito, como o espírito do Natal.

Não dava para ninguém discordar. E, além disso, ficou provado que a branquinha sabe ler melhor do que muito palhaço político. Aproveitando o momento, olhando para todos, Lua se pôs a cantar uma musiquinha cuja letra estava impressa no verso de um rótulo de massa para pães de queijo. E dançava, a branquinha, rebolando o rabo e agitando as orelhas.

Lá lá lá lou
A Zambézia acabou!
Pra casa da Tia Cris
Eu vou! Eu vou! Eu vou!

Mosquitinhos vou levar
Pros penudos alimentar.
Pães de queijo vou comer
Até o papai aparecer!

Os penudos vão piar
Quando a ânfora quebrar
E os mosquitinhos libertar.
Depois vamos comer e dançar.

Lambidonas de montão
Na Tia Cris eu vou dar
E depois de tocar seu coração
Um sorriso eu vou ganhar.

E pra encerrar digo
A quem queria saber
Se eu sei escrever
Mamãe me ensinou
A digitar no computador
Obaaaaaaaaaaaaaaaaa.

Marly Spacachieri - dezembro de 2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O MISTÉRIO DA LETRA ESSE




(pra Lulu)

Em meio ao silêncio .... zap zap zap .... o barulho de algo raspando o chão. Pipoca acertou as orelhas para o barulho ... zap zap zap zaaaaap. - O que era isso? Vinha lá da sala junto com um monte de zzzzzzzzz que era, naturalmente, o ronco do tio Chicão em seu tapete. Mas aquele zap zap zap insistia. Pipoca se escondeu debaixo do lençol porque morria de medo dos fantasmas. Pensa que cachorro não tem fantasmas povoando seus medos? Tem sim. Tem o sabonete sem cabeça, a pulga gigante, a coleira com enforcador, o homem da carrocinha com seu laço, a agulha da vacina, a criança do lado com mania de puxar os pelos ... e muuuitos mais. Porém, o tal do zap zap zap .... não era conhecido não! Pipoca resolveu que era hora de dormir e esquecer. Devia ser uma coceira qualquer ... de um pulguento .... apesar de que todas as pulgas foram expulsas com o tal produto cheiroso que a mamãe comprou. - Sei lá! Melhor dormir.

Fuc Fuc – O que era isso agora? Pipoca suspirou e resolveu investigar. Podia não ser a mais corajosa de toda a matilha, mas tinha um tiquinho de ousadia. Porém, pensando melhor resolveu pedir ajuda pra Jujuba. – Jujuuuuuuu, acorda!

- Mas o que você quer Pipoca? Tô com sono. Quero dormir para o tempo passar logo e logo chegar a hora de ganhar o leite de soja. Fique quieta.

- Você não tá ouvindo o fuc fuc e o zap zap? – perguntou Pipoca

- O que? Como um fuque fuque e um zapi zapi? – falou a Jujuba, no mesmo instante que um fuc e dois zap eram ouvidos por ambas.

- Ora bolas, disse Jujuba. É lá na sala. Vamos lá ver – ao mesmo tempo em que colocava seu boné de aba pra trás para ficar com cara de má. Se fosse um fantasma .... ela espantaria. Ah! Espantaria sim! RRRRRRR.

As duas saíram de cima da cama, bem devagar, pra não acordar a Azeitona porque com ela ... auuuuu ... seria o maior banzé. Chegando à sala viram a Lua com uma vassourinha nas patas dianteiras, apoiada nas trazeiras, vestindo um aventalzinho feito de papel de embrulho onde se lia “O melhor pão de queijo”,varrendo o chão e cantando:

Lá lá lá lá
Quando a mamãe acabar
De a Zambézia estudar
Na casa da tia Cris eu vou
E pão de queijo vou ganhar
Lá lá lá lá

- Luaaaaaa – chamou a Pipoca. – O que você está fazendo? É muito tarde e a gente tem que dormir!

- Nada disso, disse a branquinha. Vou continuar a faxina porque logo cedo vamos ter aulas. E sala de aula tem que ser limpíssima! Tem sim! Estou até colocando um cheirinho gostoso, falou mostrando o frasco de desodorante do papai.

- Que novidade é essa agora? – perguntou Jujuba.

- Novidade nenhuma. Teremos aulas todos os dias e recreios todos os dias! – exclamou a Lua.

- Pipoca, disse Jujuba – vou dormir porque dessa daí só sai esse tipo de idéias onde todos nós acabamos ou tomando banho ou indo ao veterinário. Melhor deixá-la aí. E nem ligou pro focinho triste da Lua.

- Mas ... ia dizendo a Pipoca quando notou que a Lua ficara triste. E se tem coisa ruim para um cachorro é ficar triste. – Lua, você quer montar uma escolinha? É isso? Mas quem vai ser o professor? O tio Chicão anda tão cansado que acaba dormindo no meio da aula ... Mamãe está com aquela Zambézia que não lhe solta do pé e o papai .... bem .... nem pára em pé de tão cansado.

- Nada disso, Pipoca. Euzinha quero ser a professora. Até consegui um lousa e um giz, disse a Lua mostrando um fundo de comedouro e um pedaço de lápis de sobrancelha que encontrara quando foi passear com o pai no jardim. – Dá pra gente brincar muito. E aprender. E comer pães de queijo nos recreios.

Pipoca pensou que não havia nada de errado na filhota querer ser professora de brincadeira. Afinal, de uns tempos para cá o apartamento tinha virado uma coisa complicada, com livros para todos os lados. E papai era professor ... e mamãe sempre ensinava alguma coisa pra alguém, além de ter se tornado mestre em história depois de falar tanto sobre a tal Zambézia! Claro que os filhotes sentiam vontade de serem professores! E, além disso, a Lua ficou muito triste com a pouca atenção da Jujuba. Pior coisa do mundo é esfriar a alegria de alguém.

- Claro que vamos brincar sim, Lua – falou a Pipoca. Vamos juntar todos e assistir a sua aula.

- Mesmo? Você jura? Vai ser assim? Auuuuuuuu – uivou a branquinha enquanto pegava sua vassourinha, ajeitava o avental e voltava a cantar:

- Lá lá lá lá
- Quando a mamãe acabar ....

Pipoca voltou para a cama e se enfiou debaixo do lençol. Quando pensou em dormir ouviu o chamado.

- Acorda cachorradaaaaaaaaa. Tá na hora da aulaaaaaaaa – gritava a Lua ao mesmo tempo em que pulava sobre a cama. Não havia o que fazer. Era melhor levantar e fazer o que ela queria. Lua quando quer .... tem! Chegando à sala encontraram o tapete no centro e uma folha de papel marcando cada lugar. Cada um foi se colocando onde quis porque a Lua não sabia escrever e por isso os lugares eram de quem chegava primeiro. Até os invisíveis vieram, todos, bocejando. Colocados em roda e aparece a branquinha carregando um saquinho cheio de algumas bolinhas.

- Bolinhas de queijo?farejou a Chica.

- Pode tirar seu focinho do meu lanche! – resmungou a Lua. – É pra hora do recreio. E agora vamos pra aula. Vou começar falando – quer dizer – latindo algumas perguntas e ....

- Xiiii, ela vai imitar o tio Chicão? – perguntou o Pingo

- Não vou imitar ninguém, seu amarelão! – gritou a Lua – Quero saber quem sabe o que eu vou perguntar! Quero só ver!
- Deixe a menina Lua começar sua aula – ponderou tio Chicão que ainda estava se acomodando no lugar que escolhera, bem perto do armário do televisor porque ali poderia se encostar e sentir menos dor. Ah! Como doía aquele reumatismo!!!

- Obrigada, tio. Vamos ver, falou a Lua, enquanto se colocava no centro da roda. – Quero saber o que é sabão.

- Ora, Lua, é aquele negócio que quando se coloca na água faz bolhas e esfrega-se no nosso pelo – falou a Azeitona.

- E sai aquela água suja e nojenta, disse Lulu, que depois de ter ficado transparente permanecia a mesma vaidosa de sempre.

- Nada disso. Nada disso. Sabão é uma dança. É sim!

- Mas que dança? Falou o Pingo. – Só se for quando a gente pisa e escorrega. Aí dá aquele arrasta pata dos brabos, vai uma pata pra cada lado e a gente se esborracha no chão.

- Nada disso! Nada disso! Sabão é uma dança do fandango no Rio Grande do Sul, de S.Paulo e de Pernambuco que foi popular no século XIX , disse a Lua, olhando para os lados e procurando a fisionomia espantada de cada focinhudo.

- Que quer dizer fandango? Perguntou a Chica

- Fandango, senhora Chica, é uma dança típica, falou tio Chicão.

- Mas não é o nome de um salgadinho que faz crec quando a gente morde e .... começou o Pingo

- Nada disso! Ninguém sabia! Zero pra todo mundo menos pra eu, gritou a Lua.

- Não, não, menina Lua. Não se pode deixar uma pergunta sem resposta. A senhora deve dizer o que é fandango, ponderou Tio Chicão.

- Tá certo, tá certo, mas deixem eu tomar uma água – disse a Lua enquanto entrava na biblioteca da mãe. Ninguém falou nada, mas lá não tem pote de água. Ela demorou um tantinho e ao sair tinha o riso dos vencedores no canto do focinho.

- Ateeeeençãooooo. Vou falar o que é fandango e só uma vez: é uma dança em pares conhecida em Espanha e Portugal desde o período Barroco caracterizada por movimentos vivos e agitados, com certo ar de exibicionismo, em ritmo de 3/4, muito frequentemente acompanhada de sapateado ou castanholas e seguindo um ciclo de acordes característico (lá menor, sol maior, fá maior, mi menor).

- Credo, exclamou o Teco que havia entrado e se instalado perto da Chica porque antes de ser invisível ele era namorado dela. Ah! Bons tempos!!!! Essa branquinha parece um foguetinho sem controle. Bonitinha e ai.... gritou depois de levar um apertão da Chica. Ela estava visível e atenta, isso sim! Invisível ou não ele que se comportasse! Esse negócio de se considerar protetor das cadelas tinha que acabar! Tinha!

- E vamos para a outra pergunta, latiu a Lua. Atenção! O que é sabongo.

- Sa ... o quê? Gritaram Azeitona, Pipoca e Jujuba ao mesmo tempo.

- Sabongo! Sa-bon-go! Falou a branquinha. SABONGOOOOOO.

- Um cachorro com bom faro? – arriscou a Tetê

- Cocada, respondeu a Chica.

- Como assim? Cocada? – falou o Teco

- É uma cocada feita com ponto mais brando, esclareceu Chica. Eu gosto muito, mas prefiro a cocada tradicional, aquela com fitas de coco .... e anote aí Teco, que logo faço aniversário e ...

- Como assim? Fitas de coco?

- Sim, Lua. Fitas de coco, disse a Chica.

- Certo. Ponto pra Chica ... falou a Lua ... franzindo a testa e querendo saber de onde a mini cadela havia visto isso. – Tem coco nessa farofa! – pensou mas não se atreveu a dizer. Imediatamente passou para outra questão. – Atenção todos e todas! – Quem é o saci-pererê?

- Esse é dos meus, exclamou o Kousky que viera acompanhando a Lulu porque mesmo transparente ela era uma cadela muito bonita e já havia tempos que ele suspirava por ela. Agora que eram transparentes podiam ficar juntos. Ah! O amor! – pensou o Pingo!

- Kousky, quer fazer o favor de se explicar? – falou a Azeitona. – Eu sei que o saci é um menino de uma perna só e preto como eu. Você é cachorro e de pelo branco. Como pode ser da mesma turma?

- Simples, garotona Zezé – falou o peludo sem perceber o franzir de focinho do Pingo. Como então aquele folgado chamava a Azeitona de Zezé? – Somos os dois bastante traquinas.

- Traquinas? Isso não é nome de biscoito proibido pra cachorros? – gritou a Pipoca.

- Traquinas, menina Pipoca, é o mesmo que peralta, levado ... – explicou tio Chicão.

- Vamos! Vamos! Até agora não se falou quem é o Saci Pererê – reclamou a Lua. – Tem que responder direitinho para ganhar os pontinhos. Ih! Rimou!

- Bom, - exclamou o Kousky – lá na minha casa tem livros e livros e eu aprendi com a minha mamãe ....

- A tia Cris! A tia Cris! AUUUUUUU – gritou a Lua, toda emocionada e ciumenta.

- Sim, a MINHA MÃE, latiu o Kousky, tem muitos livros e num deles li que o Saci é um menino levado ... mas não sei mais nada.

- Pode ser um parente meu porque é preto e falta uma perna, disse a Tata ajeitando-se entre a Lulu e o Kousky porque era a mais velha e guardiã dos “bons costumes”. Além do mais, como não tinha uma pata dianteira podia tudo.

- Tio Chicão? Cê sabe? – perguntou a Jujuba enquanto afiava seu ossinho limpa-dentes em formato de pingente.

- Bom, vamos lá. O Saci Pererê data do século XIX e é associado ao diabo e ao mesmo tempo nas festas religiosas, como a de Folias de Reis .... Trata-se de uma menino levado, como disse o garoto Kousky, mas com maus hábitos como o de fumar cachimbo ...

- Argh! Puá! Credo! – exclamações vindas de todos os lados.

- ... tem as mãos furadas ....

- Tadinho! Quem fez isso? – choramingou a Lua

- A lenda, Lua – respondeu o Pingo.

- .... usa uma espécie de gorro vermelho, a carapuça, que tem poderes mágicos. Só se captura um saci se se tirar a carapuça dele. A noite ele assovia e assusta os animais, faz nós nas crinas dos cavalos e emaranha as caudas das vacas, azedando seus leites. É ele quem queima os alimentos no fogão ....

- Tio Chicão! Se esse malvado aparecer aqui e quiser enroscar os pelos da Lulu, azedar o leite da caneca do Pingo ou queimar o meu pão de queijo .... dou-lhe uma mordida .... disse a Jujuba – e lenda ou não .... ele vai sair correndo.

- E aí Lua? Ponto pro tio Chicão?

- Sim! respondeu a branquinha decepcionada porque não estava se sobressaindo como queria. Mas todos estavam preocupados porque a cada tempo ela corria até a biblioteca da mãe e depois voltava toda contente. Algo acontecia. Pipoca foi espiar e chamou o Pingo,que era mais alto pra tentar descobrir o mistério, mas ...nadica de nada.

- Vamos a outra pergunta! Por que tem o dia de todos os santos? – questionou a Lua

- Mas o que cachorro entende de santo, Lua? – ponderou a Azeitona. – Não tem esse negócio de santo com a cachorrada.

- Como não? E o São Francisco que virou o tal encosto da mamãe e depois ficou grudado no papai? Todo mundo fala que esse São Chicão grudou neles? – falou o Pingo

- Nada disso, gente canina – latiu melodicamente a Lulu. O São Francisco foi um homem bom, que cuidava dos bichos e da natureza e quando ficou transparente passou a ser anjo da guarda dos bichos. A gente brinca muito com ele. Quando vocês ficarem transparentes vão conhecer o quintal dele. Tem cada flor maravilhosa com perfumes di-vi-nos.

- Voltemos ao tema! Ordem nessa bagunça! Exclamou a Lua. – Quero saber por que tem um dia para todos os santos. Quem sabe? Ninguém? Obaaaaa. Ponto pra mim.

- Para ganhar seu ponto, menina Lua, é preciso responder a sua pergunta, falou tio Chicão.

- Mas ....

- Sem mas, Lua. Responda – gritou Jujuba, toda nervosa e com o boné já virado pra trás, sintoma de que estava se animando pras mordidas.

- Mas .... choramingou a branquinha ... deve ser pra dar dia para todos os santos. É isso. É sim.

- Nada disso! Responda direito! Não nos enrole! – resmungou Jujuba e todos ouviram aquele rrrrrrr.

- Calma, menina Jujuba. A filhota está certa. É isso mesmo. Como todos os santos devem ter um dia comemorativo e se tem muito mais santo que dias, a igreja católica estabeleceu um dia para todos os santos. Dessa forma nenhum ficou de fora – explicou tio Chicão, olhando pra Lua e dando uma piscadela.

- Brrrrr – mostrando língua pra Jujuba – continuou a Lua. E continuando ... o que é sarna?

- Tenha dó, Lua. Sarna é palavra proibida aqui – falou o Pingo, já se coçando e morrendo de medo.

- Sarna é uma coceira, ué! – exclamou a Tila, que chegara e se instalara ao lado da Chica, lambendo a sua orelha como nos tempos em que não era transparente e se aninhava ao lado da amiga. Chica aproveitou e mudou de orelha pra aproveitar mais o carinho.

- Nada disso, falou a Lua. Sarna é uma dança.

- Mas isto é uma aula ou um baile? Perguntou a Lulu. Porque se for um baile vou querer pentear meus pelos, arrumar minha cauda, passar perfume atrás das orelhas e ....

- Sarna é uma dança do Rio Grande do Sul ...

- De novo os gaúchos? – exclamou a Azeitona

- ... onde os pares dançantes fingem que se coçam ...

- Coisa besta! Onde já se viu fingir que se coça! Coceira é uma desgraça e tem gente que inventa uma? Não acredito! Falou o Pingo.

- ... e eles se coçam como se estivessem com sarna – continuou a Lua

- Piorou! Sai dessa, falou o Pingo.

- Menino Pingo, pense que todas as manifestações culturais são oriundas ...

- Tio Chicão! Pare com isso! Que é isso de falar palavrões na minha aula? – reclamou a Lua.

- Que palavrão, menina Lua?

- Esse tal de oribunda ...

- Oriunda. Oriunda, sua surda, reclamou a Azeitona. Quer dizer “de origem”.

- Isso mesmo, menina Zezé. Parabéns. Mas continuando, todas as manifestações culturais tem uma origem e muitas vezes são de observar alguns hábitos do dia a dia. – explicou tio Chicão.
- A sarna? – falou o Pingo

- Não obrigatoriamente a sarna, mas as coceiras em geral. Lembrem-se que nos séculos passados, principalmente dos inícios do XX para trás, os hábitos de higiene eram precários e quase nada se sabia sobre as alergias. Por isso, como as pessoas confundiam as coceiras e a sarna era a mais comum, todas acabaram sendo chamadas assim. Por isso o nome da dança.

- Ponto pra ninguém, disse a Lua. E enquanto corria na biblioteca novamente, Pingo e Lulu se reuniram ao Kousky para discutirem esse estranho comportamento da filhota. Daí que Kousky percebeu que todas as questões envolviam palavras-chaves iniciadas com a letra S.

- É isso mesmo! Falou Lulu. Vamos ver se ela continua!

- Bom, peludos, vamos pra outra questão: o que sentinela?

- É a Tata esperando pra comer moscas, falou a Tuca, que chegou de mansinho como sempre. Depois que ficara transparente ficou muito mais silenciosa. – A Tata, antes de se transformar em transparente, ficava de sentinela esperando a mosca voar pra nhac.

- Creeeeedooooo. Arghhhhhh – saiu correndo a Lulu, pra tomar um grande gole de água para cães não transparentes e que molha os bigodes.

- Não sei porque tanto nojo, exclamou a Tetê.- Eu mesma, antes de ficar transparente, comi uma moscona ... e devolvi em seguida. Não estava no ponto para ser comida. Mal passada ... ou mal voada! Papai até fotografou.

- Precisava contar, Tuca? Precisava? Agora as moscas transparentes vão me azucrinar! –reclamou a Tata. Mas era verdade. Sempre que podia, antes de se transformar em transparente, Tata ficava a espreita esperando a moscar bobear e ... nhac.

- Vocês não sabem nada de nada, disse Lua ao sair da biblioteca mais uma vez. Sentinela é um velório, um lugar onde está o morto.

- Taí uma coisa que não entendo, disse a Pipoca. Por que os humanos fazem isso? Ficar olhando o corpo do morto? Não tem nada lá. Ele ficou transparente e está em outro lugar ....

- Mas os humanos não sabem disso. Eles acham que quem morreu ... morreu e está longe, num lugar pagando pecados ou sentado numa nuvem tocando a tal harpa... ponderou o Teco.

- Pobres humanos! Eles sofrem a toa! Olhem nós aqui, todos juntos. Até um penetra galã veio! – disse o Pingo olhando pro Kousky, que nem se importou. Ele queria mesmo era a atenção da Lulu.

- O certo é que sentinela pode ser sim um velório, principalmente na região nordeste do país, explicou tio Chicão.

- Eu sabia, disse a Jujuba, porque no carro do papai tem um cd do Milton Nascimento e o cachorro dele disse que ele gravou uma música com esse nome dizendo que o amigo estava morto. Quero esse ponto pra eu! Quero! Rrrrrrrr

- Bom, melhor dar esse ponto pra Jujuba porque .... disse a Lua, enquanto ia escapando pra dentro da biblioteca da mãe.
- Ela merece sim! – disseram todos os demais.

Aparecendo logo em seguida, Lua pergunta qual deles é filho-do-padre?

- Tá louca? Desde quando cachorro pode ter pai padre? Imagine a batina? – disse a Tuca.

- E como ele ia ajoelhar? – perguntou a Lulu.

- E rezar o terço? E ministrar as hóstias? – disse a Tila

- Hóstia de queijo? Hummmmm – lambeu os beiços a Lua. Ninguém sabe?

- Bom, menina Lua, eu acho que todos somos filho-do-padre aqui nesta casa – disse Tio Chicão.

- Alto lá! Alto lá! – latiu o Teco. – Não tem padre nenhum na minha cruza!

- Meninos e meninas, ser filho-do-padre quer dizer “alguém com muita sorte”. É isso.

- Ahhhhh – foi uma exclamação coletiva. – Mas isso inclui cachorros?, perguntou a Tuca.

- Claro que sim, esclareceu tio Chicão.

- Ponto pro tio Chicão, disse a Lua. – Agora eu quero saber o que é “ser o cão do segundo livro”?

- Nem imagino, disse o Pingo, Quer dizer que tem cão do primeiro livro?

- Que livro é esse, menina Lua? – perguntou tio Chicão.

- Espere eu tomar uma água e .... – disse a Lua enquanto tentava se afastar.

- Não tem água na biblioteca da mamãe, disse a Chica. - Pode tomar daqui mesmo.

- Não. Quero ir à biblioteca pra me inspirar, pensar, refletir .... falou a Lua

- Sem essa, girl! – disse o Teco. – Maninha terá que sair dessa sem ir para a biblio da mamãe.

- Bom, vocês insistem! Vamos ver. Se me lembro bem dos meus fichamentos ....

E todos ficaram impressionados como a branquinha ficou séria.

- .... nos anos de 1920 e 1930 os livros adotados para as escolas de alfabetização infantil, e que eram chamadas de primário ou grupo escolar, eram de autoria de Felisberto de Carvalho e tinham os títulos: Primeiro Livro de Leitura E Segundo Livro de Leitura. E dentro do segundo tinha desenhos do diabo e que era também chamado de cão.

- Que absurdo! Onde já se viu colocar aquele ser do mal como um de nós – exclamou o Pingo.

- Com o tempo, esses desenhos – do cão do segundo livro – passaram a ser sinônimo de feio, de horrível, mas, também de alguém danado de bom, bravo e valente, encerrou a Lua.

- E eu pergunto ... pra que serve isso? – questionou a Jujuba
- Como assim? Como pra que serve? – respondeu a Lua. – Trata-se de sabedoria ...

- Isso mesmo, menina Lua – confirmou tio Chicão.

- Ah! E ficar falando do mal, do diabo para cães mais novos é bom? Só pra assustar? É isso? – reclamou a Jujuba.

- Não, garota Jujuba. Discutir qualquer assunto é sempre muito saudável. – arrematou tio Chicão. – Traz novas idéias, nos faz pensar sobre outras coisas ou mesmo sobre as mais antigas crenças sob novos olhares. A discussão é sempre boa!

- Nada disso! Odeio quando o papai discute com a mamãe – reclamou o Pingo

- Não é esse tipo de discussão, jovem Pingo, esclareceu tio Chicão. – Estamos falando de diálogo, de conversa.

- E eu? Ninguém vai falar nada sobre o que expliquei? – resmungou a Lua.

- Claro que sim, Lua. Mas nos diga, de onde veio tanta informação? – falou a Pipoca. – Dos pães de queijo é que não foram.

- Bom, eu podia falar pra você que sabia disso, que tinha estudado tudo mas ... seria mentira. Eu peguei uma folha de trabalho da mamãe e do tal glossário que ela está montando ... e fui tirando essas coisas. Mas só tinha as palavras começadas com a letra S.

- Arrá! – resmungou a Jujuba. – Bem que eu desconfiava que ela estava mesmo se exibindo ... querendo aparecer ....

- Nada disso! gritou o Pingo quando viu a cara de choro da Lua. – Ela fez o melhor que pode. E olha, Lua, foi muito bacana porque estamos todos aqui reunidos, inclusive os transparentes. E felizes por pertencermos à mesma matilha.

- E aí, cara! Tem euzinho aqui – reclamou o Kousky.

- Mas você é da Tia Cris e por isso é nosso também, falou a Tata.

- Bom ... eu adorei ficar aqui com todos vocês, principalmente com as meninas, disse Kousky espichando os olhos e focinho pra Lulu, Tetê, Tuca, Tila e Tata. – Func func, farejou o branquinho. Mas sem ousar piscar para a Chica! Não! O Teco não perdoaria! Nhac.

- E tem mais – continuou Pingo. – A Lua trabalhou a noite toda pra arrumar a sala, colocar perfumes e marcar os lugares. Depois ficou convocando todos os cachorros da matilha e tudo isso pra homenagear a Lulu que ficou transparente no dia 16 passado. E ela quase nem teve tempo de se preparar. Por isso a Lua montou esta festinha. Eu ouvi tudo da minha cama.

- É mesmo Lua? Você fez tudo isso pra mim? – perguntou Lulu

- É sim. Mamãe e papai ficaram muito tristes porque eles não vêem mais os transparentes. E eu queria reunir todos aqui pra que juntos com a Lulu pensássemos numa forma de ajudar os papais nessa hora triste – falou seriamente a branquinha. Até inventei essa historinha de aula, de escola .... e nem sei fazer isso direito ... acho que me atrapalhei toda ....
- Menina Lua, você já fez o que era preciso, - explicou tio Chicão. – Quando você cuidou do lugar, perfumou a sala e chamou todo mundo para ser feliz criou uma alegria imensa nos corações e essa mesma alegria já tomou conta da casa e dos nossos pais. E foi uma professorinha das melhores!

- É isso mesmo, Lua, disse o Bim, que tinha entrado sem fazer um barulho e assistia a tudo. Trazia seu crachá da USP e um convite pra Pipoca posar para o seu blog: BigBlogdoBim. O sucesso!!! Além disso, ele já era da matilha!!! – E olhe que eu conheço tantos professores ... e você é melhor que a maioria deles!

- Obaaaaaa, gritou a branquinha. – Então vamos brincar e comer pães de queijo ...

- Menina Lua! Pães de queijo não pode! – falou Tio Chicão.

- Mas tio Chicão!!!! Choramingou a Lua olhando pro saquinho com as bolinhas de queijo.

- Calma Lua. Olhe, eu trouxe um pacotão de pães de queijo celestes, feitos com o mais puro leite de vacas do céu, disse a Lulu, próprios para cachorros.

- Obaaaaaaaaa. Lulu, você continua lindíssima – gritou a branquinha, lascando uma lambidona no focinho da menina.

- É! Sim! Mas nada de sujar meu pelo. Agora que estou transparente ... posso andar por aí ... e sabe como é, né! Sempre linda – falou a Lulu ajeitando os bigodes.

Ao longe, tio Chicão, mastigando um pão de queijo celestial, sentia-se feliz por ter tido a chance de pertencer a essa matilha especial. A menina Lua era uma alegria só. Humanos perdem tempo com coisas bobas enquanto que a felicidade está a um palmo de seus focinhos ... ops .... de seus narizes. Nesse momento todos pularam ao seu lado para a fotografia. Flash!


Marly Spacachieri
24 de outubro de 2010