domingo, 20 de junho de 2010

CHICA

A carruagem passa, os cães latem e as pulgas atacam a roupa azul da Lua

Numa noite escura, muito escura, daquela escuridão de só se ver olhos dos gatos, noite onde tudo se aquieta, a Lua dormia embaixo do cobertor porque fazia um frio de congelar barriga de pingüim. Nossa! Brrrr. Que frio. Que escuridão. Ao longe, som de uma música vinda do rádio da mamãe. Música de fazer relaxar e dormir. Lua foi se soltando, relaxando, esticando o pelo e no dormitando foi se entregando. Mas (notou que toda a historinha onde tem Lua tem um “mas”) não dormiu porque a cama pulava. Como assim? Como a cama pula? Camas não pulam! Gentes e bichos pulam nas camas, isso sim! Quem pulava na cama? Lua espiou por um dos buracos que a Azeitona fez no cobertor quando resolveu brincar de fabricar queijo, e por um deles a Lua viu a Lulu se coçando. Não era uma coceira comum, simples, uma patada lá e cá. Nada disso! A Lulu se coçava sem parar. Estava cansada. Bufou, levantou, rodou em torno do rabo e se deitou em cima da sua almofada. Começou a dormir, mas logo acordou para se coçar. E foi um coça-coça a noite toda. Nem mesmo o frio fez com que a Lulu desistisse de fazer aquela dança e mexer toda a cama. Ninguém dormiu. Lua acordou mal humorada, de olheiras debaixo dos pelos dos olhos, cansada demais. Durante o dia ficou trombando no sono, dormindo nos cantos onde encontrava um raio de sol. Nova noite e nova pulação da Lulu. Isso não podia acontecer mais. Era preciso acabar com as coceiras da Lulu. A mamãe tinha que dar um banho nela. Onde já se viu uma cadela tão bonita e dengosa como a Lulu cheia de pulgas? Não podia. Mas o que a Lua não sabia é que a Lulu estava com pulgas!
- Como assim? Pulgas? – assustou-se a Lua ao ouvir a mamãe falar com papai que precisavam comprar um anti-pulgas pra passar em toda a turminha. – Euzinha não tenho pulgas! – resmungou a branquinha. - Além do mais, ganhei uma roupinha azul lindíssima e nenhuma pulga sem vergonha vai pular nela, latiu para todas as pulgas que pudessem ouvir, mesmo tendo dúvidas se pulgas tinham ou não orelhas.
Ao chegar à sala, em cima do tapete azul estava o tio Chicão, um pastor alemão idoso e muito sábio – como todo ser idoso é, e Lua sabia disso porque era esperta e aprendia tudo que era bom. Viu que tio Chicão se coçava. Como assim? Tio Chicão estava com pulgas?
- Sim, menina Lua. Estou com pulgas! – respondeu tio Chicão antes mesmo da pequena cadela perguntar. Ele era um cachorro sábio e que observava todo mundo, sempre em silêncio, e com isso aprendera a ler nos olhos de cada um. Espertíssimo.
- Tio Chicão, às vezes você me assusta! – falou a Lua. – Mas tio, como é isso de ter pulgas? A gente não tinha nenhuma pulga ontem, antes de dormir! E de repente você acorda pulguento?
- Não apenas eu, menina Lua. Todos nós temos pulgas! – respondeu tio Chicão ainda coçando a coxa direita.
- Eu não tenho pulgas! Eu tenho sim uma linda roupa azul! – falou a Lua.
- Pois embaixo de sua linda roupinha azul tem pulgas sim, disse tio Chicão. – Elas pulam do chão, de um de nós e ... pimba! ... lá vão pra sua roupinha, por um buraquinho e chomp, chupam seu sangue.
- Nossa, tio. Que coisa terrível! Pulgas têm mola nas patas? – perguntou a cadela.
- É como se tivessem. Elas podem pular até 300 vezes a sua altura, respondeu tio Chicão depois de coçar a barriga.
- Vixessanta, disse a Lua, imitando a mãe! - E a gente não pode catar elas quando estão perto do nosso focinho, pulando, e aí a gente dá uma patada e .... adeus pulga!
- Nada é fácil e matar as pulgas também não é, disse tio Chicão. Durante toda a minha longa vida já soube das muitas pesquisas dos homens-cientistas para acabar com as pulgas mas ...
- Acabar com as pulgas? Não podemos apenas falar com elas? É preciso ser tão radical? Euzinha sou ecologicamente correta, contra a matança de animais ....
- Pulgas são insetos que prejudicam a saúde dos animais todos, incluindo os humanos, explicou tio Chicão.
- A mamãe também? – questionou a branquinha em sua roupa azul.
- Claro que sim, menina Lua. Mamãe também! E ainda é pior porque a mamãe tem alergia a picada das pulgas, o que os cientistas chamam de DAP. A pulga pica a mamãe, chupa o sangue e joga uma saliva ...
- O que é saliva?
- O cuspe, Lua, disse a Pipoca, se aproximando dos dois, não sem antes parar pra coçar a cauda.
- Isso mesmo, menina Pipoca, disse tio Chicão. Ela pica e coloca o cuspe que não deixa o buraquinho feito fechar. Ao contrário, deixa aberto e causa coceira com um prurido ...
- Um o quê – perguntaram Lua e Pipoca ao mesmo tempo, ambas com focinho de nojo!
- Um líquido espesso, quase impossível de se ver, que causa ardência, explicou tio Chicão. – Mas isso é o de menos. O problema é que ela, a mamãe, coça e com isso aumenta a lesão e pode até mesmo criar um ferimento maior e aí pode complicar.
- Malditas! exclamou a Jujuba, vestindo um bonezinho verde com a aba virada para trás. Sua coleira anti-pulgas estava enfeitada com pedacinhos de ração simulando rebites. – Elas vão se ver comigo! Eu pego uma por uma, pulga por pulga, esmago todas ....
- Bonito gesto, menina Jujuba, mas não adiantaria nada. Você ia ficar matando pulga atrás de pulga e não acabaria nunca, explicou tio Chicão.
- Credo, tio! Quantas pulgas têm aqui? – perguntou a Lua.
- Milhares! respondeu tio Chicão. E para vocês entenderem a gravidade da situação vou explicar o ciclo de vida da pulga. Ela vive entre 12 a 170 dias, dependendo da temperatura e das condições do lugar. Se estiver muito quente, acima de 35° ou menos que 3°, a pulga morre logo.
- Quer dizer, ou a gente a queima ou a congela? – questionou o Pingo, coçando a orelha esquerda, olhando hora para o freezer e hora para o fogão.
- Isso, garoto Pingo, falou tio Chicão, mas como você pode perceber, fica difícil agir assim sem causar grandes estragos no ambiente e em nós. Nesse momento, tio Chicão se deu conta que quase todos os cães estavam em volta do seu tapete azul, se coçando lá e cá. – Realmente, ponderou o idoso cachorro, a situação está fugindo do controle. Deve ter muitos ovos e pupas no chão!
- Pupa? O que é pupa? – questionou a Chica enquanto coçava a ponta da pata direita.
- Vou continuar contando o ciclo da pulga e vocês entenderão melhor, disse tio Chicão. - A pulga nasce de um ovo que cai no chão, colocada por outra pulga, e se rompe soltando a larva que foge da luz, por isso se enfia nas frestas do chão, nos meios dos tapetes e carpetes e nos estofados.
- Isso quer dizer que neste tapete azul seu deve ter algumas das tais larvas? – questionou a Lua já levantando as patas ...
- Milhares, menina Lua. Milhares delas. As larvas vêm dos ovos e uma única pulga coloca muitos ovos de uma só vez. Para vocês terem idéia, uma pulga coloca cerca de 2000 ovos em toda a sua curta vida (cerca de 5 ou 6 meses). Se uma pulga coloca 2000 ovos ... 2000 pulgas colocam milhares de ovos! Depois de se esconderem, se alimentarem e se tornarem adultas, essas pupas crescem até 2mm, criam pelos e se escondem num casulo que criam. Daí esperam o hospedeiro se aproximar, rompem o casulo e pulam nele para recomeçar o ciclo. Perfuram a pele do bicho, chupam o sangue, jogam nele as fezes que ele, o animal, joga no ambiente através do ato de coçar e que servirão de alimento para as pupas que estiverem no solo.
- Tratantes. Então além de morderem a gente ainda usam o nosso pelo como banheiro? Nojentas! – exclamou a Lua. – Não quero mais conversa com pulgas!
- Desde quando você conversa com as pulgas, Lua? – perguntou a Pipoca.
- Sou poliglota, sua focinhuda! reclama a branquinha. – Conheci a Pulex no último verão lá no apartamento da tia Cris. Ela estava de saída, muito nervosa, porque a tia Cris colocou veneno contra pulgas porque euzinha ia lá visitar ela e os penudos e ...
- Lua! Quem é a Pulequis? Quem são os penudos? – Isso tudo é mentirona das bravas! Onde já se viu falar que a tia Cris tinha pulgas? – gritou Jujuba.
- Era apenas uma, viu? E saiu correndo quando me viu arreganhando os dentes! Devia estar esperando os meus pães de queijo .... resmungou a Lua, sabendo que iam descobrir a mentira! Pingo já estava arreganhando o focinho, e ele só fazia isso quando percebia uma mentirona. Tio Chicão percebeu a possível encrenca e passou para a intervenção necessária.
- Meninas e menino! Chega de rosnados! O importante é saber que a pulga faz mal ao ser humano e ao ser canino também. Imagine que uma pulga começa a chupar o sangue e põe até 50 ovos depois de 2 dias. Existem 18 famílias de pulgas e cada uma delas tem uma preferência por um grupo de animais. A Pulex, que a menina Lua conheceu na casa da senhora Cristina, é a que ataca os homens. Mas podem atacar os cachorros se não tiverem outro hospedeiro.
- Pulgas com preferências? Elas olham o menu e dizem: - Non! Non! Querro sanguê de gatô! – imitou a Lua, rebolando o rabinho, farejando pra cima.
- Quase isso, menina Lua. Mas o que importa é que elas, as pulgas, trazem muitos problemas e alguns cães e gatos chegam a adquirir vermes que provocam anemias que precisam ser tratadas com muita rapidez. Pulga é sempre problema – explicou tio Chicão.
- Mas tio Chicão, como a pulguinha sabe que está na hora de acordar e pular no nosso pelo? – perguntou o Pingo.
- Garoto Pingo! Essa é uma excelente pergunta. Ela acorda com o barulho de eletrodomésticos, do tráfego dos veículos nas ruas, com o andar das nossas patas. Barulho. Isso faz com que acordem!
- Credo. Então acordamos um montão delas aqui neste tapete? A gente tem que ficar quietas, esquentar a casa, colocar todas luzes acesas, ou congelar o chão ... – pondera Chica.
- Não, não, cara Chica, diz tio Chicão. É preciso limpar o ambiente todo. Passar um aspirador de grande potência nas frestas, nos tapetes e almofadas, tendo o cuidado de colocar um saco de coleta descartável tendo dentro aquele pó anti-pulga que se compra no supermercado. O pó receberá as pulgas e zás!!! Quase todos os ovos e as pupas também irão morrer! O saco de coleta deve ser bem embalado, lacrado e jogado fora. Todo o cuidado é preciso. Humanos e caninos, bem como outros seres podem ser afetados pelo pó anti-pulga.
- Que maravilha! A gente acaba com elas e ... fala a Lulu, chegando toda animada.
- Não! Não! Não pensem que o problema está resolvido. No chão se deve passar aqueles limpadores com vapor, principalmente nas frestas, colchões, cobertores, edredons, almofadas. Um pano embebido em uma solução de água com água sanitária e depois retirada porque faz mal pros cães, disse tio Chicão – E não se esqueçam que os ovos podem durar até 200 dias quando estiverem em condições favoráveis (temperatura amena e local escuro). Então, parece que se foram e ... zás ....quebram e soltam pulguinhas que abocanham a gente de repente.
- Mas e como saímos disso? – perguntou a Pipoca enquanto coçava a pata, mordendo ... mordendo ...
- Banhos semanais com shampus anti-pulgas nos animais, produtos anti-pulgas nos pelos, limpeza do ambiente e das nossas roupas, diz tio Chicão. – Tem até alguns procedimentos caseiros que ajudam muito. Um deles é colocar dois copos de álcool comum com três pedrinhas de cânfora (que se compra na farmácia). Depois de dissolvidas as pedras, acrescentar um copo de água filtrada. Colocar tudo num borrifador de jardim e espalhar pelo ambiente, passar nos pelos dos cachorros (protegendo olhos e boca). As pulgas soltam do pelo dos animais. Mas lembrem-se que uma única pulga, apenas uma recomeça tudo e em pouco tempo estaremos infestados. O simples passeio em lugares com pulgas, tais como jardins e praças, trazem pulgas para nós.
- Quer dizer que a minha roupinha azul vai ter que entrar no banho? – perguntou a Lua.
- Sim, menina Lua, respondeu tio Chicão. – Ela deve estar cheia de pulgas, mordendo sua pele, soltando fezes em forma de areia preta que alimentam as pupas nas frestas e criando feridas em você! – continuou falando tio Chicão. Tinha mais coisas para explicar, mas a coceira não o deixava falar. Outro dia continuaria.
Lua viu uma pulga andando tranquilamente em sua pata, pulando de lá e pra cá. - Socorro tia Cris! Estou pulguenta! Socorro! Me acuda! – gritava a branquinha pela casa, enquanto arrancava sua roupinha azul e corria pra dentro do box do banheiro, esperando que a mãe lhe desse um banho daqueles. Lá se foi a fotografia que ia tirar, emoldurar e mandar pra tia Cris.

domingo, 13 de junho de 2010

A COPA DO PÃO DE QUEIJO NA ÁFRICA DO SUL




A Lua dormia quando seu cãolular tocou. Assustada, quase tropeçando nas patas, atendeu. Antes, porém, olhou o relógio: passavam alguns minutos da meia-noite. Quem seria nessa hora sinistra? Um fantasma? Um pão de queijo penado? Não! Era apenas o cachorro do Dunga.

Quem? Que coisa é essa agora? Quem é Dunga? Ora bolas! O técnico da seleção brasileira de futebol. O cachorro dele é o Dungacão. Pelo menos esse foi o nome dito quando a sonolenta Lua latiu o seu alô! E tanto o técnico quanto seu cão estavam na África do Sul.

Bom, e o que a Lua tinha a ver com isso? É que a branquinha tinha uma rede de relacionamentos intensa, intrincada e muito ampla. O Dungacão soube que a cadelinha branca era uma excelente repórter nos meios de comunicação canina. E que também era especialista em pães de queijo. Portanto, perfeita para integrar a equipe dos colaboradores da I Copa do Mundo do Pão de Queijo que aconteceria na África do Sul ao mesmo tempo em que os humanos teriam o seu campeonato mundial de futebol.

Dungacão se apresentou, contou sobre o evento e convidou a Lua para participar. O pagamento seria em pães de queijo. O contrato foi combinado. Mas ... afinal de contas ... onde estava mesmo o Dungacão? Na África do Sul!

- Pelos pães de queijo sagrados! – exclamou Lua. Lá vem a África de novo! Já não basta a minha mamãe estudando a tal Zambézia ... agora chega mais um pedaço desse continente! Não posso fazer feio, mostrar que não sei nada. Imediatamente correu para a biblioteca da mãe e começou a fuçar. Nada! Só Zambézia! Estava quase arrancando os pelos quando o Chicão acordou. O pastor alemão era bem mais velho e por isso mais sábio. Vendo a branquinha naquela inquietação toda perguntou qual o motivo de tanta agitação. Lua explicou que nada sabia sobre a África do Sul e como poderia fazer parte da turma de colaboradores da Copa do Mundo do Pão de Queijo?

- Ora, pequena Lua. Cachorro é cachorro aqui e lá. Queijo é queijo aqui e lá. Portanto, faça de conta que a Copa é aqui. Vai dar na mesma, - disse Chicão.
- Mas tio Chicão, a África é longe demais e tem coisas lá que aqui não tem, latiu a branquinha.
- É certo isso, pequena Lua, mas eles não tem coisas que temos. Portanto, empatamos – respondeu o pastor.
- Isso é! – latiu a cadelinha.
- Mas você pode consultar a cadela Azeitona sobre isso. Ela tem ancestrais africanos e pode te ajudar, aconselhou o pastor.
- Bacana, tio. Vou fazer isso mesmo! – disse pulando no pescoço do pastor alemão, dando-lhe uma grande lambida no focinho.
- Essas crianças de hoje ... exclamou o cachorrão, saindo vagarosamente e indo para seu tapete azul.
- Azeitonaaaaaaaaa. Azeitonaaaaaaaaaaaaaaaaa. Cadê você, Azeitonaaaaaaaaaaaaaaaaa, gritava a Lua pela casa.
- Credo! Estou aqui, Lua. Que escândalo é esse? – disse a Azeitona saindo debaixo de um cobertor. Ela sempre se escondia quando sentia frio. Era inverno e portanto, brrrrrr.
- Sabe o que é? Preciso saber tudo. TUDO. Tudinho sobre a África do Sul. – disse Lua. O tio Chicão disse que você tem um tal de ancestrais e ....
- Tenho ancestrais. Não é um! São muitos! – disse Azeitona. Todos africanos! Todo mundo tem. Você sabe o que são os ancestrais?
- Não! Deve ser uma caixa onde se guarda coisas ... um livrinho onde se anota coisas .... um vidro onde se coloca coisas ... Coisas! Eu tenho caixinhas de pão de queijo. São ancestrais? – perguntou Lua.
- Nada disso! São meus antepassados, meus avós, bisavós, avós dos bisavós ...
- Nossa! Quanta gente! Como você consegue carregar tanta gente com você? E onde guarda todos eles? Como eles comem? Onde dormem? Nunca os vi! – fala Lua ao mesmo tempo em que olha para todos os lados.
- Ai, ai e ai! Nada disso, Lua. Ancestrais são os antepassados. Estão quase todos mortos.
- Puxa vida! Então não servem pra nada! Que adianta ter tanta gente morta? Não vão falar comigo! – resmunga a branquinha.
- Lua, eu recebi todos os ensinamentos vindos dos meus ancestrais. Um vai falando para o outro, de avó para neto, de pai para filho. Assim, todos nós sabemos tudo.
- Ah! Que bom. Então, se você sabe tudo, me conta – exclamou a Lua, toda animada. Mas antes espere ... vou buscar o meu bloquinho de anotações. Fiz um com os rótulos das embalagens dos pães de queijo. Ficou bonitinho e cheira muito bem. Hummmmm.

Voltou pouco depois. Sentou-se na frente da Azeitona, colocando-se sobre as patas traseiras. Lápis atrás da orelha direita e bloquinho entre as patas dianteiras.
- Manda ver, Azeitona! – disse a Lua, toda animada.
- Afinal, Lua, o que você quer saber? – perguntou Azeitona.
- Tudo sobre a África do Sul. Lá vai ter a I Copa do Mundo do Pão de Queijo e eu fui escolhida como repórter canina. Vou latir tudo pros torcedores daqui. Preciso fazer bonito. Não posso ir latindo qualquer coisa. Não senhora! Quero que tudo o que sair deste focinho seja verdade de verdade. Por isso, liga para os teus ancestrais e eles que soltem os bigodes e nos contem.
- Lua, você realmente é única! – disse Azeitona.
- Sou lindíssima. Uma Gisele, como diz a Tia Cris. Se ela diz que eu sou ... eu sou mesmo! Sussurrou a Lua.
- Pois bem. Vamos por pedacinhos ...
- .... como uma dentadinha num pão de queijo quente .... interrompeu a Lua, lambendo os bigodes.
- .... começando pelo povo da África do Sul. – completou Azeitona.
- Certo, latiu a Lua.
- Lua, eu vou falando e você anota. No final, se ficar algum dúvida, a gente esclarece. Certo? Não fique me interrompendo o tempo todo ....
- Eu? Interrompendo? Imagine! Nunca! Sou quietíssima! Não falo nada! Sou uma pedra ....
- LUA! – grita Azeitona
- Calada! rrrr, resmunga a branquinha.
- Bom, a África do Sul tem uma diversidade cultural muito grande ...
- Mas o que é diversidade cultural? pergunta a Lua
- Gentes de diferentes costumes, línguas, crenças. Imagine que a Constituição reconhece onze línguas como oficiais...
- Ninguém se entende! Tá na cara ... ou melhor .... no focinho .... – exclama a Lua.
- Nada disso. O inglês é a língua oficial e comercial e é a mais falada na vida pública.
- All right. exclamou a branquinha.
- Vamos lá, diz a Azeitona. Quase toda a população é negra (80%) mas isso não garante que eles falem a mesma língua. Ao contrário. Hoje são mais de 43 milhões de pessoas mas como a AIDS está em grande expansão, é bem provável que em menos de 15 anos a população caia para uns 35 milhões.
- Mas ...peraí .... se todos os humanos sabem como a AIDS é perigosa ... porque continuam sem se cuidar? – pergunta uma Lua indignada.
- Isso é outro assunto, Lua. Não é coisa de cachorro!
- Nem o apartheid é coisa de cachorro, mas vamos falar sobre ele. Coisa mais idiota. Separar humanos brancos dos não-brancos. Será que separavam os cães de pelo preto dos outros? E os que tinham pelo branco e preto? E os pretos com pelinhos brancos e os brancos com pelinhos pretos ....
- LUA! Não quer saber mais sobre a África? – gritou a Azeitona
- Claro que quero, mas é que tem coisas ...
- ... dos humanos, Lua. Dos humanos! – resmungou Azeitona. Deixe isso com eles. Os cães não têm racismo.
- Isso é! sacudiu as orelhas, a Lua, toda feliz. Somos espertíssimos!
- O cachorro do Nelson Mandela disse que ...
- Você conhece o cachorro dele? Conhece? Me apresenta? Ele tem pulgas? Ele se coça? Tem vacina? Tem ....
- Lua! Ou você se cala, anota e fica quieta ou eu vou pra debaixo do meu cobertor! diz a Azeitona, muito irritada.
- Sim (bem baixinho).
- Pois bem. O cachorro do Nelson Mandela disse que somente em 1994 é que realmente o povo negro sentiu que o apartheid estava finalizado, quando seu tutor subiu ao poder. Até as pulgas saltaram mais felizes. Você está ouvindo, Lua? Parece que está quase dormindo!
- É que o Dungacão ligou muito cedo. Acordou-me. Cachorro sem noção! – explicou a Lua.
- Nada disso! É que lá na África do Sul são 5 horas a mais que aqui. Se ele ligou no começo da noite, aqui já era madrugada. Foi isso! explicou Azeitona.
- Continuo achando ele um sem noção! – resmungou a Lua que comeu um pão de queijo com pó de café para ficar desperta.
- Bom, Lua. Vamos ao que você mais gosta: a culinária.
- Slamb, salivou a branquinha.
- Olha. Os principais pratos da culinária da África do Sul levam a carne como ingrediente principal. E ela é tão importante que faz parte de uma das festas mais famosas: o braai, que significa carne grelhada.
- Mas isso é o nosso churrasco, não é? – perguntou Lua.
- Quase isso. É que tem temperos deles, o que faz a diferença. Mas também as carnes são de outros animais ...
- Tenho medo de perguntar! Que animais? – fala bem baixinho uma Lua apavorada.
- Pode ser o lombo de um jacaré, uma cabeça de carneiro ou mesmo as larvas de insetos, bem fritas.
- Eu não devia ter perguntado! Agora vou até o cantinho vomitar – por causa das larvas – e na farmácia tomar um calmante – por causa dos jacarés! – falou uma Lua toda arredia.
- Nada disso, Lua. São costumes deles. Não precisamos comer nada do que não queremos. Você queria saber dos pratos típicos e eu disse. Apenas isso. – explicou a Azeitona. Eles podem sentir nojo dos nossos pratos. Não se esqueça que aqui se come miolos, buchos ...
- Páraaaaaaaaaaaaaaaaaa. Argh! Quero minha ração. Quero meu pão de queijo. QUERO!!! – gritou uma Lua e chamou tanta a atenção que a Pipoca acordou assustada, pulando como um milho, e correndo até as duas cadelas perguntou o que estava havendo.
- Nada demais, Pipoca, disse a Azeitona. Estou explicando os pratos típicos da África do Sul para a Lua e ela ficou apavorada, enojada e outros “ada” !
- Comida? Hummmm – suspirou a Pipoca.
- Quieta você, exclamou a Lua. Se quiser ouvir – apenas ouvir – fique. Se não ... volte pra cama!
- Hunf pra você, disse a Pipoca, voltando para sua caminha e se enfiando embaixo do cobertor.
- Voltemos Azeitona. Vamos logo. Não posso perder tempo. Logo o Dungacão me liga pra passar a pauta pras reportagens do O AU, nosso jornal do condomínio, e eu tenho que estar por dentro de tudo. Continue, por favor, disse a Lua, ao mesmo tempo em que apontava seu lápis lixando a ponta no cortador de unhas caninas.
- Bom, ainda na culinária, eles têm as tortas de carne com batatas e lingüiças especialmente feitas, à mão, que são grelhadas diretamente no fogo. E ... Lua? Está me ouvindo?
- Slamb ... estou .... slamb ... lingüiça com pão de queijo .... slamb ....
- Mas tem o curry que é ardido como pimenta, mas é feito com uma mistura muito interessante: açafrão da Índia, cardamomo, coriandro, gengibre, cominho, casca de noz moscada, cravinho, pimenta e canela.
- Não era mais fácil comprar uma pimenta vermelha, daquelas ardidas? Mais fácil! resmunga a Lua.
- Ai, ai. Lua. Nada disso. Eu disse ardida e não pimenta. Cada um no seu lugar.
- Cada um no seu quadrado!!!! Auuuu, exclama a branquinha.
Azeitona ignora a explosão da cadelinha e parte para o final sobre o item da culinária: o papa, que é feito com farinha de milho e água, feito como um purê mais duro e que acompanha todos os demais pratos.
- Tem queijo ralado nele? pergunta Lua
- Não! responde Azeitona
- Então .... nadica de nada! Não tem mais nada? – questiona Lua
- Sim, saladas e frutas.
- HUNF! Mas eu sei que eles têm bons vinhos porque meu papai ganhou uma garrafa de um deles e gostou muuuuuito. Mamãe ganhou um tal licor de elefante ...
- Não é de elefante, Lua. É Amarula, uma frutinha típica de lá, explicou Azeitona.
- Mas tem um elefante no rótulo. Tem sim. diz a Lua.
- É só um desenho, pra enfeitar, explica Azeitona.
- Desde quando se enfeita com elefante? – Sei não! Tem coisas de elefante naquela garrafa. Minha mamãe disse que não pode tomar muito porque é pesado. Taí. Elefante é pesado! responde a Lua.
- Mas tem música lá, engatou a Azeitona, para ver se a Lua deixava de birra e teima.
-Música? Então meu pai vai gostar. Que música tem lá?
- Bom, Lua. Muito das músicas da África do Sul são adaptações de músicas européias, principalmente porque durante o apartheid não era permitido cantar em línguas africanas, apenas em inglês ou numa mescla de idiomas de nome afrikaans. Hoje já há todo um cuidado com a música local e os festivais de jazz atraem muita gente de todos os lados do mundo.
- Não falei! Meu papai vai se interessar. Ele toca jazz todos os fins de semana num tal chópi.
- Chópi? O que é isso? – pergunta Azeitona.
- É shopping, sua burrinha – gritou ao longe a Pipoca, debaixo do cobertor.
- Fique quieta sua amarela aguada ... berrou a Lua. Fica escutando conversa dos outros! HUNF!
- CHEGA! Gritou o Pingo, do alto de seu focinho de pit-lata. Todos se encolheram, até mesmo a samambaia. Quando o Pingo late ... o mundo se cala. A Lua se cala! Vixessanta. Continue, Azeitona, latiu o Pingo.
- Alguém quer saber sobre a literatura da África do Sul? perguntou a Azeitona, tentando melhorar o ambiente carregadíssimo!
- Desembuche, falou a Jujuba, ajeitando seu boné virado pra trás, uma autêntica badcadela e ajeitando sua coleira antipulga onde ela colara lasquinhas de ração para parecerem pregos e rebites. Yah!
- Pois é! Eles já tiveram dois prêmios Nobel da Literatura ...
- Também, com onze línguas... até eu, resmungou Jujuba, a nervosinha. Uma delas ia ganhar a tal corrida ...
- Que corrida, Jujuba? É um prêmio de mérito. Um prêmio que se dá por causa da alta qualidade da escrita do autor, explicou Tio Chicão, lá de seu tapete azul. - Quem ganhou na África do Sul foi J.M.Corteze e a sra. Nadine Gordimer.
- Quem lê isso? Tudo pra cachorro de rico! Cachorro de pobre lê livro pobre! resmunga Jujuba.
- Mas o que é isso aqui? reclama a Lua. Eu estou trabalhando! TRABALHANDO! E vocês enfiando os bigodes no meu trabalho!!! Nada disso!
- Apenas um esclarecimento antes de continuarmos, Lua, disse a Azeitona. A Jujuba está sendo preconceituosa porque a arte é para todos. A escrita é uma arte fenomenal e quem quiser pode dela desfrutar. Porém, apenas para esclarecer, um autor sul-africano renomado é J.R.R.Tolkien e ele escreveu O Senhor dos Anéis, livro popularíssimo!
- Certo! Certo! Mas vamos em frente que o Dungacão vai ligar!!! reclamou a Lua, enquanto a Jujuba resmungava alguma coisa e se escondia embaixo do cobertor da Pipoca, empurrando a amarelinha pro canto. - E tem dança na África do Sul? – questionou a Lua.
- Claro, Lua. As danças, como em quase todo o território africano, estão intimamente ligadas às práticas da guerra, da caça e dos festejos e cerimônias, explicou Azeitona.
- Cada um no seu quadrado? perguntou a branquinha.
- Mais ou menos, disse a Azeitona, pensando em como seria difícil explicar as danças pra cadelinha. Melhor não! - Mas tem esportes também.
- Isso eu sei, disse a Lua.
- Como assim? Sabe o quê? inquiriu a Azeitona.
- Eles, os sul-africanos, foram campeões mundiais de rúgbi em 1995 e 2007. Foi um cachorro quem me contou, disse a Lua.
- É verdade, disse Azeitona, sem deixar transparecer sua surpresa. Essa branquinha era imprevisível. - Mas você sabe qual é o mascote deles nesta Copa de Futebol Mundial? Um leopardo que recebeu o nome de Zakumi (ZA é a sigla do país e KUMI quer dizer dez). E a bola de futebol para essa Copa tem onze cores diferentes porque ...
- .... tem onze etnias diferentes e ela, a bola, tem nome ... completou a Lua.
- É sim! disse Azeitona, totalmente perdida diante da branquinha. - E ela recebeu até um nome...
- ... é a Jabulani, completou a Lua, com o focinho mais sério.
- Lua! Que está acontecendo? De onde você tirou todas essas informações? perguntou Azeitona.
- Do jornal que papai colocou no chão pra gente lá no quintal. Fui lá fazer meu xixi e encontrei a notícia. Mas é só isso! Pode continuar, disse Lua, enfiando o pedaço do jornal pra debaixo do tapete ao ver que a Azeitona ficara irritada.
- Certo! E Jabulani quer dizer “trazendo alegria para todos”, completou uma Azeitona séria.
- Que nem você, Azeitonaaaaaa, disse a Lua ao mesmo tempo em que pulava sobre o focinho da pretona e lhe dava uma grande lambida, toda feliz. Como ficar brava com ela? Não dá. Azeitona levantou-se e seguiu para o balde de água. Falar tanto lhe dera sede. Nesse tempo, a Lua encontrou as colas que a Azeitona usara e viu que se tratava de uma reportagem sobre a África do Sul feita por uma jornalista de nome Carina Bessa e que publicou tudo isso que foi dito e muito mais em sua matéria África do Sul, a bola da vez, no Jornal Leve e Leia – ano 3, maio de 2010 – pp. 2 e 3.
- Essa Azeitona .... tão séria ... que a gente acredita! Bom, o importante é que o Dungacão pode ligar agora que já tenho o que latir. Brasssiiiiillllll. AUUUUUUU. Beijos, tia Cris. Rumo ao hexa pão de queijooooooooooooooooo.

sábado, 10 de outubro de 2009

DE LATIDOS À PALAVRAS


Se tem uma coisa que deixa a Lua nervosa é ela latir e ninguém entender! Os humanos são complicados entre eles mesmos, muitos falam e ninguém entende nada. Imagine se eles vão entender o que os cães latem ou o que quer dizer um miado? Nunca. Cachorro late do outro lado da cidade e todos os demais entendem. A grande maioria dos humanos não é interessada em comunicação homem com cão, pelo menos é o que parece. Porém, existem alguns humanos muito bem intencionados e preocupados com a comunicação entre animal e humano. Tem sim!

A Pipoca ficou encarregada de convocar no condomínio todos os cachorros para uma reunião extraordinária. Ordens da Lua! Assim fez e assim foi. Como os donos não deixariam os caninos saírem foi preciso montar um esquema de latidos informadores. Assim: a Lua latia pra cima e os demais iam repassando para os outros mais próximos. E estes mandariam as informações para os demais, até que todos tivessem recebido a mensagem. Um protótipo animal de satélite. Alta tecãonologia. usada para um momento histórico.

A Lua, em cima da máquina de lavar para poder ser vista pelos outros cachorros das demais áreas de serviço começou a explicar que logo todos os cachorros falariam com os humanos. A remessa das mensagens para os outros animais foi ficando cada vez mais intensa. O assunto era entusiasmante. Contudo, alguns não acreditaram.

- Como assim? Não acredito! disse Xinxila, o pequinês amiguinho da Lua do apartamento 25.

- É verdade Xinxila! Pesquisadores japoneses lançaram uma maneira de promover o diálogo entre os humanos e os cachorros. Como? Com um tradutor de latidos. A engenhoca recebeu o nome de Bowlingual Voice. Pode parecer coisa de desenho animado, aquele onde humanos e cachorros se falam. Na verdade trata-se de um aparelho que analisa a acústica dos sons emitidos pelo cão e os traduzem para palavras. O aparelho é produzido por uma empresa chamada Takara Tomy e detecta seis emoções diferentes, sendo as mais importantes a tristeza, a alegria e a frustração. E também associa sentimentos a frases como “brinque comigo”. O aparelho deve custar em torno de US$ 200 e será vendido no Japão ainda no ano de 2009.

- De onde você tirou tantas informações Lua? questionou Zeus, o fox paulistinha do 16.

- Ora! Eu sou uma grande pesquisadora, disse a branquinha, escondendo a “cola” debaixo da pata.

- Que mais tem sobre isso? perguntou Jujuba, a co-irmã da Lua em assuntos culinários.

- Por enquanto é só isso que vou falar. Mais tarde, num outro dia, falo mais. Agora estou cansadíssima! resmungou Lua que não admitia seu desconhecimento sobre o assunto, e se apavorou pela quantidade de perguntam que lhes faziam. Deixou todos muito curiosos.

Temerosa de abalar a sua imagem de pesquisadora canina lançou-se na tarefa de fuçar mais sobre o assunto. Começou folheando os jornais que vão servir para forrar o chão onde os cachorros todos fazem xixi. Enfiou-se na caixa de papelão e foi jogando todas as folhas pro alto. Uma bagunça enorme, mas que o papai, logo depois, arrumaria. Os pais são ótimos e arrumam todas as badernas que os cães fazem. Resmungam, gritam, esperneiam, mas arrumam. - E não entendem quando a gente pede desculpas! - resmungou a Lua.

- Se pelo menos eu pudesse pedir ajuda pra mamãe! suspirou a cadelinha.

Num momento de sorte encontrou num jornal a matéria sobre o assunto. Imediatamente chamou a Pipoca e ordenou – isso mesmo!!! ordenou – que ela convocasse nova reunião extraordinária.

- Mas Lua ... o pessoal acabou de desmanchar a rede do satélite canino! reclamou Pipoca.

- Nem quero saber! Isto é muuuuito importante! Vamos! Vamos! – disse Lua.

- Por que não falou naquela hora, Lua? – perguntou Jujuba que estava espreitando a branquinha e sabia que ela apenas tomara conhecimento das novidades depois de procurar nos jornais velhos.

- Porque eu não queria! Só isso! Nada além disso! – resmungou a cadelinha.

- Pipoca suspirou fundo e saiu em convocação da extra-extraordinária assembléia. Porém, ao contrário do que pensava, os amigos caninos correram para seus postos de retransmissão. Estavam excitadíssimos sobre o assunto.

- Caros amigos! Vou tirar as dúvidas de todos. O aparelho contém um microfone a ser colocado no pescoço do cachorro e um dispositivo que fica com seu dono.

Esse foi um ponto que a Lua não gostou. Ficou pensando como ficaria ridícula com a engenhoca em torno do seu lindo pescocinho branco. Amassaria seu laço de cetim. Além do mais, é bem possível que o Pingo fizesse piada disso. Já podia antever o cachorro amarelo rindo dela e gritando:

- Pamonha, pamonha, pamoooooonhaaaaaa!

Justamente para ela que só se interessa por pão de queijo! Ainda se fosse uma pamonha de queijo ralado, tipo parmesão!!!É! Mico puro e certo. Mesmo assim, continuou a contar como funciona o tradutor de auaus.

- Toda vez que o cachorro latir, o microfone grava o ruído e manda a informação para o dispositivo que está com o dono. Daí acontece a tradução do que o cão disse! E essa gravação acontece inclusive quando o dono estiver ausente. O primeiro aparelho que tentou traduzir os desejos caninos foi feito em 2002, no Japão, e apenas apontava, numa tela, as possibilidades de interpretação dos desejos caninos. Vendeu mais de 300 mil unidades.

- Quem quiser ver uma demonstração, disse a Lua, anote o link:

http://www.youtube.com/watch?v=ummUCShK_Wk

A movimentação canina foi imensa. Todos latindo ao mesmo tempo, afinal, falar com os humanos e ser entendido parecia o fim de um pesadelo. Alguns deles iriam saber – na verdade – o que seus cães pensam e sentem sobre os tratamentos que recebem. Fritz, o pastor belga do 36 já estava montando sua rede de contatos que seria o conselho de uma futura entidade de defesa da palavra do cão. Ele, o Fritz, seria o delegado. Outros grupos surgiram na hora, inclusive o dos defensores da abolição dos banhos.

Lulu ficou encantada ante a possibilidade de ser entendida pelo entregador de pizza delivery. Imagine ela acionando o cãolular, sendo atendida e pedindo dezenas de pizzas de carne moída?

Já a Lua pensou naquelas entregas especiais de salgadinhos.

- MARAVILHA!!!! Pão de queijo o dia todo, salivou a branquinha.

Aí o cãolular da Lua tocou: AUUUUU, AUUUUU.

- Aulô, diz Lua. Quem é?

- Sofia, Lua.

- Sofia?

- Sim, a cadela do Alexandre Rossi, aquele zootecnista que vive entre os bichos, conhecido como Dr.Pet.

- Sei sim. Assisto sempre ao programa onde ele ensina coisas pros humanos. Meus pais não faltam. Eu assisto junto pra vigiar se eles estão prestando atenção! Como vai você?

- Bem. Olhe, eu liguei porque estou sabendo do seu interesse entre essa tal de comunicação entre humanos e cães e ...

- Como é que você soube disso? perguntou a desconfiada Lua.

- Lua! Eu sou associada do satélite canino e entre cães não há segredos!.

- Isso é! ponderou a branquinha.

- Pois então. Acontece que o meu dono, o Alexandre, se comunica comigo. Nós batemos loooongos papos. Ele me entende! disse Sofia.

- É? disse a Lua, desconfiada de aquela canina tivesse querendo se mostrar. Não deixaria. Nunca. Pelos deuses dos pães de queijo, lutaria até o fim!!!

- Mas é verdade sim. O Alexandre (Rossi) fez um trabalho fantástico comigo, explicou Sofia. - Fui adotada por ele, que me encontrou abandonada na rua, ainda filhote (hoje tenho 7 anos) e começou um estudo para provar a capacidade do cachorro de se comunicar com o homem por meio de gestos. Montou um painel que “fala” frases assim: “estou com fome” ou “quero fazer xixi”. Aí eu aprendi a apertar a tecla do painel quando quero aquela coisa. Não precisamos de nenhum japonês para nos traduzir! Vamos no velho e bom idioma português.

- Que maravilha, exclamou a Lua. Imagine só euzinha no meu painel com muitas teclas onde conste a mensagem: QUERO PÃO DE QUEIJO AGORA.

De nada adiantou a Sofia argumentar que cachorro só pode comer ração! Lua já estava resolvida a fabricar seu painel. Dissolveu a assembléia e começou a procurar o material necessário para montar seu pãoinel de pão de queijo!

Marly Spacachieri
transcrito@yahoo.com.br
Fonte de pesquisa: O Estábulo de São Paulo – Centro Acadêmico Moacyr Rossi Nilsson – FMVZ/USP – agosto de 2009.

sábado, 3 de outubro de 2009

A LUA SÓ ANDA
NA RUA
DE COLEIRA E GUIA
Especialmente dedicado a Tia Cris que lá de Paris vai comer pães de queijo sentindo muita saudades da Lua! É sim!!!

A Lua é muito interessada em coisas da ciência. Ela entra na biblioteca da sua mãe e fuça tudo o que pode. Outro dia achou em cima da mesa um artigo de uma revista que trazia um cachorro na fotografia.

- Isso é muuuuito auspicioso, pensou a Lua.

Sentou-se sobre as patas trazeiras, ajustou a cortina com o focinho para que a luz entrasse e começou a fuçar. Era a história de um cachorrinho que se perdeu dos donos e que voltou porque conseguiu, sozinho, encontrar a casa.

- Grande coisa! Eu acho os meus brinquedos em qualquer lugar! resmungou a Lua.

Mas o que a Lua não sabia é que os cachorros tem receptores olfativos (farejadores, na linguagem caninês) 40 vezes mais potentes que o dos seres humanos.

- Por isso acho 40 pães de queijo quando a mamãe só acha um, riu a branquinha

Na verdade, isso explica como os cães acham pessoas desaparecidas depois de alguns dias. Eles conseguem identificar cheiros de rios, árvores e até de jardins da região onde mora.

- O vento leva esses cheiros, o cachorro capta-os e segue em busca do lugar perdido, disse a revista que a Lua lia.

Revista fala? Bom, naquela biblioteca tudo podia acontecer e ganhar vida. Se uma cadela fazia pesquisas .... nada mais espantava!

- Mas com tanto cheiro ruim? questionou a Lua pra revista.

- Tem razão, Lua, respondeu uma das páginas. A poluição, que você chama de cheiro ruim, está causando complicações de entendimento nos focinhos caninos.

- Mas por que os cachorros fogem? Eles não gostam de suas casinhas? perguntou o Batatinha, um cão de pelúcia que fica em cima do armário.

- Eles fogem para tentar perpetuar a espécie, disse a revista. E por isso os machos fogem mais que as fêmeas. E a maioria dos que se perdem jamais retornam.

- E os humanos não fazem nada? perguntou a Lua

- Alguns tentam, mas os cachorros são sapecas. Um dos humanos montou uma página na internet http://www.caesperdidos.com.br/ para anunciar os cães desaparecidos, porém, muitas pessoas não ligam muito para cachorros que aparecem, que estão perdidos e com medo. Tem dono que nem liga.

- Tadinhos, choramingou a Lua. – Se eu sair de perto, minha mãe tem um ataque e meu pai fica maluco. Eles me adoram ... quer dizer ... eles adoram todos nós.... e todos os cachorros do mundo. Inclusive um gorducho chamado Bim. HUNF!

A revista sugeriu que as pessoas treinem seus animais para que possam, caso se percam, retornar para suas casas. A Lua correu pro quadro negro que está preso atrás da porta e de giz em pata começou a escrever em caninês. Os proprietários devem:
- caminhar com seu animal diariamente pelo bairro;
- chamar a atenção do cachorro para placas, estabelecimentos e semáforos;
- estimular o faro canino colocando petiscos escondidos pela casa;
- evitar cheiros fortes, principalmente de produtos de limpeza;
- alternar os caminhos dos passeios, mudar os horários e as frequências dos passeios;
- ir o mais longe possível nesses passeios.

- Puxa, quanta coisa, disse a Lua. – Vou ter que pedir pra minha mãe anotar tudo e colocar no meu blog.

- Mais uma coisa, disse a revista, - Quando o faro falha, os animais usam a audição. Eles ouvem a quilômetros de distância.

- Então os cachorros tem GPS? questionou o Batatinha.

- Pode-se dizer que sim, respondeu a revista. Mas, é preciso cooperar evitando poluir o ar. O faro é importantíssimo.

- Faro? É claro, diz a Lua farejando pra cima. – Estou farejando .....farejando ..... noooossaaaaaaa ...

- O que é, perguntaram a revista e o Batatinha.

- Pães de queijo no porta-mala do carro do papai que está entrando na marginal Pinheiros agora.

- Mas aqui é Taboão da Serra!!!!! falou Batatinha.

- GPSPQ, respondeu a Lua.

- Que é isso? perguntou a revista.

- GPS do Pão de Queijo, respondeu a cadelinha, lambendo o focinho. Tchau, genteeeeeee. Vou esperar meu papai atrás da porta. Aí ele entra e eu .... zás .... cato todos os pães de queijo.
Autoria: Marly Spacachieri
Outubro/2009
transcrito@yahoo.com.br

sábado, 5 de setembro de 2009



ARREGANHANDO
FOCINHO



... E MOSTRANDO OS DENTES






A Chica não pode ver um espelho que logo arreganha o focinho para ver como estão os seus dentes. Vaidosa como ela só, Chica consulta a cada seis meses o seu veterinário dentista. Isso porque a saúde bucal dos animais é tão importante quanto a dos humanos. Chica aprendeu que restos de alimentos e bactérias acumulam-se na superfície dentária formando a famigerada placa bacteriana e o tal tártaro (aquela pedra amarelada). Aí vem o mau hálito. Chica ficou assim. E foi piorando a cada dia até chegar no médico. O estado dos dentes dela era precário e tinha muitos tártaros. A gengiva estava doente. Foi preciso fazer uma raspagem profunda e até mesmo retirar alguns dentes que não tinham condições de tratamento. A Chica ficou preocupada com duas coisas: como poderia comer suas rações já que perdera muitos dentes e como ficaria seu sorriso irresistível? Nada mudou. A Chica, depois da recuperação da cirurgia, voltou a comer e a sorrir. Não tem mais aquele bafo horroroso, pode morder seus biscoitos especiais para cachorros e sorrir para o Pingo todas as vezes que o vê. Depois disso não descuida da saúde bucal.

A Lua, que ainda é muito jovem, quis saber mais sobre isso. Foi ao veterinário e começou a série de perguntas que só ela sabe fazer. O doutor, munido de toda paciência do mundo, respondeu. Vamos transcrever essa entrevista:

LUA: Doutor Knino, como os donos dos cachorros podem fazer para manter uma saúde bucal no seu animal? Ih! Rimou! Sou poetisa canina? Hum!!!!

DR.KNINO:
É preciso começar cedo, ou seja, limpar os dentes do animal logo no início de sua vida. Fazer desse hábito um prazer para o cachorrinho. Os adultos também podem começar. Nunca é tarde.

LUA
Prazer? Como é que raspar dentes pode ser prazer? Sei não! Cachorro é bicho desconfiado e enfiar uma escova de dente na boca canina .... gera mordidas na mão, isso sim!

DR.KNINO
Não Lua. É preciso acostumar o animal, mas sempre sem machucá-lo. Se ele for filhote, acostumar a aceitar carinhos em torno do focinho. Fazer isso sempre e dar a ele recompensas pelo bom corportamento. Um passeio na rua ou mesmo um biscoitinho para cães ajudam muito. Somente após ele aceitar esse afago no focinho é que se pode começar a higienização.

LUA
Hum! Pode ser pão de queijo? Eu não gosto de biscoitinhos para cachorros!

DR.KNINO
Não, Lua. Tem que ser produtos especializados e adequados para cães. Nada de pão de queijo!

LUA
Não gostei. Nadica de nada. Mas ... vamos lá, né?

DR.KNINO
Esse treino do filhote para receber a limpeza dos dentes pode ser feito também para o cão adulto, porém, se ele já estiver com tártaros é preciso que um médico veterinário especialista faça a raspagem das pedras e torne os dentes limpos. Só depois disso é que o dono do peludo pode partir para a higienização diária.

LUA
Será que dói?

DR.KNINO
Não Lua. Todo o tratamento feito pelo médico é com o cão sedado.

LUA
O que é sedado?

DR.KNINO
Dormindo sob o efeito de anestesia.

LUA
Ah! Assim dá! Queria ver alguém abrir o focinho do Pingo! Nem por sonho! Mas, vamos em frente. Depois que o cachorro está com os dentes limpos das pedrinhas e pedronas que o médico dentista veterinário tirou, aí o cachorro come um pão de queijo e ...

DR.KNINO
Nada de pão de queijo, Lua. Nada! O cachorro só pode comer ração e petiscos especialmente feitos para eles. Nada de pão de queijo.

LUA
HUNF! Tá certo ... depois que o cão come um biscoitinho de queijo .... de cachorro .... o que acontece?

DR.KNINO
Após as refeições e com os dentes e gengivas tratados, o cachorro já deve estar familiarizado com os afagos em seu focinho. Só após essa etapa é que o dono do canino deve enrolar um lenço ou uma gaze em seu dedo indicador e massagear os dentes e a gengiva. Entendeu?

LUA
Sim senhor. E oque faz o senhor achar que nós, os cachorros, gostamos disso?

DR.KNINO
Todo carinho é gostoso, Lua. Se o dono do peludo for carinhoso, recompensar com carinhos, petiscos – de cachorro – e passeios, o cachorro vai adorar esse jogo. Além do mais, quem não gosta de massagem? Tem coisa mais gostosa?

LUA
Pão de queijo, mas ... E aí? O que acontece?

DR.KNINO
Habituando o cachorro ao contato bucal com o lenço ou a gaze, pode-se passar para a escova de dente. Tem que ser uma de cerdas ultra macias, como a das crianças.

LUA
Alto lá! Com assim? Escova de dente? Não vai dar certo! Não mesmo! O Pingo vai morder a escova toda. Ele come até a vassoura, que dirá a escovinha dentes!

DR.KNINO
Por isso é preciso que o Pingo aprenda que a massagem é gostosa. Dessa forma, ele pouco resistirá a escova de dentes. Além disso, a pasta dentária tem que ser veterinária, que é apropriada e tem sabor agradável.

LUA
Tem com sabor de pão de queijo?

DR.KNINO
Creio que não, mas se a idéia for boa, quem sabe não fabricam uma?

LUA
Idéia boa? É essencial, doutor. Essencial! Pão de queijo em pasta é tuuuudo de bom. Aí a gente passa pelo dente e ... hummmmm ....

DR.KANINO
Voltemos, Lua. Lembre-se que a pasta de dente humana faz mal ao cachorro. Nem mesmo as infantis. O animal não faz enxágue e engole a pasta. Por isso o produto tem que ser veterinário. O dono do cachorro precisa ser cuidadoso e ter paciência. Nos primeiros dias de escovação, ela só deverá acontecer nos dentes da frente. Fazer movimentos circulares e depois, da gengiva para a ponta dos dentes. Quando o peludo estiver acostumado a isso, passar a escovar os dentes posteriores, mas sempre com movimentos circulares.

LUA
Dentes frontais e dentes posteriores ... todos eles esfregados circularmente com pasta de pão de queijo. Maravilhoso!

DR.KNINO
Creme dental canino, Lua! Nada de pasta de pão de queijo!

LUA
HUNF!

DR.KANINO
Somente após o cachorro aceitar essa escovação é que se pode tentar escovar os dentes pelo lado da língua. Mas, se ele não quiser, o dono deve ter paciência e ir ganhando a confiança dele. Jamais o repreender e, ao contrário, retribuir o bom comportamento com muito carinho e biscoitinhos caninos.

LUA
Quantas vezes tem que limpar os dentes?

DR.KNINO
Pelo menos uma vez ao dia. Se puder ser após cada refeição, melhor.

LUA
Eu vou deixar meu dono limpar meus dentes todos, o tempo todo, desde que seja com pasta dentrifícia sabor pão de queijo. Pode ser aroma mussarela, parmesão e até o queijo prato. Gorgonzola não. É muito fedido. Vou deixar sim. Até a escova ele vai poder passar.

DR.KNINO
Certo, Lua. O importante é saber que o mau hálito é sinal que há algo errado na boca. E quando o dente dói, o cachorro sofre muito. Estudos mostram que 85% dos cães e gatos sofrem de algum tipo de problema dentário.

LUA
Dr.Knino, tem alguma forma de minimizar a formação dos tais tártaros? (Viu como eu falo difícil! “Minimizar” eu aprendi com a minha dona, que sempre quer minimizar os tais “gastos com as compras dos supermercados”. Que será isso, hein? Menos pães de queijo!).

DR.KNINO
Tem sim. A ração seca auxilia no controle da formação da placa bacteriana. As tiras de couro, especiais para animais, ajudam a manter a limpeza feita diariamente. O cachorro deve receber uma delas por dia. Mordedores, bolinhas e brinquedos especiais também ajudam. Mas nada disso funciona sem o olhar atento do dono e da avaliação periódica do médico veterinário.

LUA
Certo, doutor. Só mais uma coisinha.

DR.KNINO
Sim, Lua. Qual a sua dúvida?

LUA
Onde eu encontro a pasta de dente canina?

DR.KNINO
Em pet shop especializados em cães.

LUA
E para onde eu lato reclamando que não tem pasta de dente canina com sabor de pão de queijo?

DR.KNINO
Lua, tenha dó. Não serve sabor carne?

LUA
Não. Quero pão de queijo. Sem isso ... fecho a boca! HUNF.

Texto: Marly Spacachieri
Pesquisa: ABOV – Associação Brasileira de Odontologia Veterinária

sábado, 22 de agosto de 2009

CASO MUUUUITO SÉRIO

A Lua pede a todos que vejam este vídeo.
http://www.youtube.com/watch?v=2DR6XqBKkSM

Vale a pena



O CASO DA CEBOLA

Esta história,contada pela nossa Jujuba, uma cadela doce, foi inspirada num cachorrinho muito especial chamado Falafel*, pertencente a Mara Kanczuk. Ele sabe porquê!

Juão sempre teve uma preocupação com nomes, mais precisamente com os originais, aqueles que podem ser interpretados. Trauma do seu? Talvez! Juão se ressentia - e muito - desse "u" indevido, fruto da má vontade do escrivão que não orientou seu pai na hora do registro civil. O de sua irmã era sim um nome bonito e diferente! Madeusa soara poético até se saber que havia sido tirado dos carimbos existentes nas caixas das quinquilharias que o chefe do pai recebia do estrangeiro: Made in Usa! O irmão de Juão, esse sim, tinha um nome bonito: Raiuvaque, que os amigos chamavam de Raiú.

Foi nesse clima de letras que Juão cresceu e se firmou. Aprendeu que primeiro é preciso saber o nome e depois conhecer a pessoa. Namorou algumas garotas, mas não conseguia ficar com nenhuma. Era só perguntarem o nome dele para o romance acabar. Os amigos, sabedores da encrenca, procuravam por meninas de nomes exóticos para que Juão pudesse namorar. Nada. O máximo que acontecia era uma junção de nomes de pai com a mãe. Foi o caso da Pedélia, cujo pai chamava-se Pedro e a mãe, Adélia. Juão ficou com coceiras só de pensar, mas os amigos argumentaram que podiam ter uma filha que se chamaria Julia, Juão com Pedélia. Não adiantou.

Quando Felipe, seu amigo mais próximo, deu-lhe um cachorro de presente, batizou-o como Palmito. Palmito? Sim! E ponto final, que o cachorro é dele.... Palmito veio para transformar a vida de Juão, pois através dele conheceu Ricaura e a Alface.

- Quem? Ricaura? Meu Santo Deus...! - gritaram os amigos.

Sim, Ricaura, filha do Sr.Ricarmárcio e Dona Marilaura. Irmã de Marimárcia e do Marciomar. Uma família de peso no nome e, de tal jeito que Juão ficou com medo de ser diferente só por ter um único "u" no nome. E se Ricaura não achasse o nome dele charmoso? Bem que poderia ter um nome como daqueles antigos e que estão registrados no cartório? Lembrou-se do Sr.Colapso Cardíaco da Silva, da Dona Graciosa Rodela, do Calendário Gregoriano da Costa ... e outros tantos. Contudo Ricaura mostrou-se avessa aos preconceitos e apaixonou-se pelo Juão.

E o Palmito pela Alface, uma cadelinha linda, novinha e fofa.

Os humanos casaram-se. No primeiro ano veio a primeira filha: Jurica, sem acento mesmo! Apelidada de Juju, tornou-se a luz da vida do casal. No segundo ano veio o filho: Ricão. E no terceiro ano, finalmente Alface deu a luz para 4 filhotes, todos a cara do pai e o pêlo da mãe. Exultante com o aumento da família, Juão procurou os amigos para juntos comemorarem.
E cerveja desce... sai prato de batatas fritas... pede uma lingüiça no capricho... risos... até que alguém se lembrou de perguntar os nomes dos filhotes. Juão perdeu o sorriso e pousando a cerveja na mesa olhou para todos - lágrimas nos olhos. Todos aflitos pensando em desgraças.... Juão respirando fundo, fungando mesmo. Puxa vida! Coisa brava vem aí... tragédia... serão defeituosos? Serão feios? Ora! E tem cachorro feio? Imagine! Morreu algum? Não! Ué? Pediu-se um gim que Juão jogou goela abaixo. Parado, fitando o nada, olhos envesgando para a ponta do nariz e a turma nervosa. Música do rádio abaixada! Copos sendo apertados... De repente um grita:

- Desembucha, desgraçado!
Juão tenta falar entre soluços. Acalma-se

- Palmito é como se fosse meu filho. Alface é a melhor cadela que ele poderia querer. E a cria foi linda, mas nasceram só 4 machos e nenhuma fêmea.

Um grito de "mas que bobagem..." saiu da boca de Felipe.
E uma confusão se formou. Todos queriam ver a tragédia que Juão falara, mas cadê a danada? Juão, nervoso com os amigos, levantou-se jogou o dinheiro sobre a mesa ao mesmo tempo que berrou:

- Ignorantes! Eu não posso ficar num bando de ignorantes! - Saiu em seguida, deixando todos espantadíssimos.

Felipe seguiu e foi encontrá-lo sentado na praça.

- Mas o que está havendo? Que diabos deu em você? - perguntou Felipe.
- Você não entendeu? - disse Juão.
- Claro que não - disse Felipe - há algo pra ser entendido?
- Pôxa! É tudo tão simples, tão claro! Veja você: Palmito e Alface tiveram 4 filhotes que batizamos de Vinagre, Sal, Óleo e Orégano.
- E daí? - pergunta Felipe.
- E daí? Não nasceu a Cebola! Você já viu Palmito, Alface, Vinagre, Sal, Óleo e Orégano sem Cebola? Viu? Não! E nem vai ter! O veterinário fez a tal esterilização na Alface. Nunca mais vamos poder ter a Cebola! Nunca mais!

* FALAFEL (pronuncia-se Faláfel) é o nome de um sanduíche árabe feito no pão sírio com humos, tehina, berinjela, tomate, pepino, repolho, batata frita, bolinhos de grão-de-bico com ervas e CEBOLA! Sem a cebola não é Falafel, certo?